quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Borboletas não babam letras, do fazedor de poemas

Bem me lembro de, aos cinco anos de idade, ser puxada pela mãozinha e levada ao estúdio de rádio para concretizar a minha super obra artística musical chamada Vitamina C. Um amigo, o fazedor de poemas, foi quem me ajudou a dar ritmo para a suposta invenção genial que eu havia escrito numa folha de caderno e que se tornaria o hit number one dentro de casa nos próximos anos - "Vitamina C, ótimo pra você, você tem que beber", algo assim. Foi ele, o fazedor de poemas, quem me levou ao estúdio naquela tarde de Sol, e era mágico cantar no microfone e depois escutar a minha voz com a acústica tão perfeita do estúdio nas caixas de som. Até hoje, às vezes, me gozam por aí: "Vitamina C, ótimo pra você, você tem que beber". Anos depois, com uns nove ou dez, foi a vez da composição do sapo que caía na água, que grunhia, que chiava, que badalava a beça. Foi numa exposição de fotografia que a minha mãe fez, no Beto Batata; gente bebendo, rindo e falando alto, e eu, com aquele tédio de criança no bar, desenhando minhas bonequinhas olhudas no guardanapo, não via a hora de voltar pra casa. Eis que chega ele, o fazedor de poeminhas - ilustre Aluíso de Paula, e senta ao meu lado, mostrando como uma boa invenção em guardanapos de bar pode ser produtiva e divertida. Deve ter sido mais ou menos a partir daí que eu comecei a curtir o clima de boteco. Inventamos juntos a música do sapo, mas nunca gravamos essa, e eu infelizmente a esqueci.

Hoje eu estou escrevendo para divulgar e falar do seu livro, "Borboletas não babam letras", mas não podia deixar de mencionar a sua querida participação no meu amor pela poesia, o seu incentivo a me fazer escrever, desenhar, criar, em geral. Acho bonito esse espaço que o fazedor de poemas ajuda as crianças a abrirem dentro da arte. Deve ser porque, como eu, ele acredita que das pequenas cabecinhas, podem sair grandes idéias espontâneas que dos cabeções jamais sairiam. Nesse seu livro, o "Borboletas não babam letras", tem a ilustração de um menino de dez anos, o João Tuão, juntamente com ilustrações de insignes nomes das artes visuais, como Luiz Rettamozo e Ademir Paixão. São todos célebres, afinal. Tanto Paixão e Rettamozo, com tantos anos de trabalho, quanto João, aos dez de vida. Aposto que ele ficou feliz de publicar tão cedo.
O livro é uma obra compartilhada. São dezenove ilustradores, e há também as "páginas em branco", que são o espaço do leitor de interagir com o livro. Nessas páginas você é livre para desenhar, escrever, colar, enfim, deixar seu pensamento. Por isso, vem com um lápis, e é em formato de sketchbook. Achei peculiar.

"Não gosto de fazer nada sozinho", disse Aluísio no lançamento de ontem (23/09), que foi na Livrarias Curitiba do shopping Estação. "Não sou poeta, sou fazedor de poemas". É que ser poeta é um ofício, segundo ele. Parte da galera do bate-papo discorda. E por aí se desenrolam as discussões (no bom sentido) sobre poesia, as oportunidades de fazer arte em Curitiba, suas relações e arte conceitual, interação com o público.
Os poemas do Borboletas são pequeninos, de poucas palavras, mas não por isso, deixam de ser imensos. A contra-capa explica: "A poesia de Aluísio de Paula é concisa e direta, mas carrega tantos significados, que faz o leitor se perguntar como o poeta consegue escondê-los - e revelá-los - em tão poucas palavras."

disperso
me dispo
verso por verso
- Aluísio de Paula

Então, leiam aí: "Borboletas não babam letras" - Aluísio de Paula. E pra melhorar ainda mais, ele está montando um site onde você pode publicar o seu poema ou ilustração feito nas "páginas em branco" e conversar com outros leitores, encontrando um ilustrador pro seu poema ou poeta pra sua ilustração. Tá tudo explicado aqui nesse site.
Pra quem quiser, amanhã, (dia 25/09), vai ter outro lançamento do Borboletas, no Escritório verde da UTFPR (Av. Silva Jardim, 807).

É isso, Alú. Por último, tenho que contar pra você que também nunca vou escrever "idéia" sem acento.

este instante
que já é outro agora
dura o quanto demora

- Aluísio de Paula

ilustração: João Tuão

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Cores e rabiscos

(TERNURA

Veio de longe com os sapatinhos na mão
E num salto e noutro, sem compasso
Dançou sapateado sobre o meu coração

                                                          gigi)
(VELHA QUEDA

tenho velha queda por certas palavras
elas preenchem o buraco da minha expectativa,
são feito uma tradição intangível
nomeando coisas que se alteram ou se unem
à medida do ângulo
ou simplesmente essas palavras
abrem uma mancha bem no meio da minha testa a cada vez que grita
uma chama aqui dentro
é que eu tenho velha queda
por certos sentimentos

                                              gigi)
(JACK

- Eu quero uma doze de Jack.
- Já? São dez da manhã.
- Então eu quero onze.

                                                        gigi)