Alguns diretores de cinema trazem essa coisa, essa poesia, como foco principal do seu trabalho. Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain é uma obra-prima sobre a força do despercebido. E tem o Almodóvar. Ele parece criar seus personagens a partir de uma ternura particular contida em cada serzinho dessa terra, enaltecendo seus detalhes mais ricos, como numa caricatura. Um diretor-caricata. Que, mais do que adorar a cor vermelha e travestis com passados no mínimo loucos, aproxima o homem da sua própria natureza.
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| (Ilustração de Nicholas Peres) |
Enfim, foi o cinema. Por isso a expressão “enquadramento cinematográfico imaginário”. Porque foi o cinema, com o seu poder de arrancar os olhos do concreto, de abordar o abstrato, a magia dos espaços reclusos, dos olhares elétricos e das tramas inusitadas. Com seus roteiros que abordam e equalizam o impacto do simples comum e o inimaginável, sem limites. Tudo é mais intenso e mais significativo nas películas. Mia Wallace e Vincent Vega tomando um milk-shake e falando sobre silêncios desconfortáveis constrói teorias e estarrece corações.
Um bom enquadramento cinematográfico imaginário é aquele que lhe causará um sorriso discreto ou uma profunda tristeza repentina. Com o tempo nos esquecemos de alguns deles, mas outros novos vivem voltando a aparecer em cada canto. Espontaneamente.
