quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ode aos enquadramentos cinematográficos imaginários

Escutar a conversa dos outros ao redor é errado de acordo com os mandamentos morais, mas a ética entra de supetão e salva os curiosos porque vai ver até ela escuta por aí o que não devia. Certos diálogos – cômicos, trágicos, sarcásticos, abençoados da branca ignorância – têm uma capacidade inconsciente de salvar dias alheios de possíveis grandes tédios e estranhos vazios. O que quero dizer, é: existe uma poesia enclausurada nas coisas quando vistas de fora. Momentos despercebidos, personalidades excêntricas e cenários perfeitos que quando se manifestam é como se estivessem em cena; nos enquadramentos cinematográficos imaginários de quem observa, adicionando uma beleza exótica à vida.

Alguns diretores de cinema trazem essa coisa, essa poesia, como foco principal do seu trabalho. Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain é uma obra-prima sobre a força do despercebido. E tem o Almodóvar. Ele parece criar seus personagens a partir de uma ternura particular contida em cada serzinho dessa terra, enaltecendo seus detalhes mais ricos, como numa caricatura. Um diretor-caricata. Que, mais do que adorar a cor vermelha e travestis com passados no mínimo loucos, aproxima o homem da sua própria natureza.

(Ilustração de Nicholas Peres)
Foi o cinema, basicamente, que me ensinou a encontrar as mais diversas essências da vida escondidas em minúcias. Minúcias essas presentes nos pontos de ônibus, nas lanchonetes, nos fumódromos dos bares quando já não se sabe se as pernas são pernas realmente sustentáveis e alguns cigarros podem acabar sendo acesos ao contrário. A poesia é um elemento e te pega de surpresa. Pode soprar de levinho feito o vento da manhã ou ocasionar um incêndio metafórico a revirar lençóis.

Enfim, foi o cinema. Por isso a expressão “enquadramento cinematográfico imaginário”. Porque foi o cinema, com o seu poder de arrancar os olhos do concreto, de abordar o abstrato, a magia dos espaços reclusos, dos olhares elétricos e das tramas inusitadas. Com seus roteiros que abordam e equalizam o impacto do simples comum e o inimaginável, sem limites. Tudo é mais intenso e mais significativo nas películas. Mia Wallace e Vincent Vega tomando um milk-shake e falando sobre silêncios desconfortáveis constrói teorias e estarrece corações.

Um bom enquadramento cinematográfico imaginário é aquele que lhe causará um sorriso discreto ou uma profunda tristeza repentina. Com o tempo nos esquecemos de alguns deles, mas outros novos vivem voltando a aparecer em cada canto. Espontaneamente.