A água quente d'um banho solitário levou através do ralo uma parte da dor que encardiu minha alma na partida; e junto à dor, a saliva tua, já seca, ex-colada na pele extensa das minhas pernas, as tuas lágrimas que caíram sobre a minha cabeça e engruvinharam meus cabelos todos esses dias, o perfume de homem ex-preso às minhas mãos.
É literal. Cheguei em casa impregnada e precisei de uma lavagem, tudo foi descendo pelo cano, pra que eu pudesse pensar sobre o que aconteceu com mais clareza. Eu me renovei, assim, enrolada na toalha azul-marinho, e senti um pouco a melancolia da solidão. Uma taça de vinho. Mais uma, depois de todo o vinho e todo o mais, vinho pra rebater a ressaca, ressaca de cachaça, ressaca de você. Pensei e continuo pensando como seria se a gente pudesse estar perto todos os dias. Dou risada: dias entre quatro paredes, nós sempre ausentes de roupas, quase uns índios.
Todas as vezes, fazemos amor da chegada à saída. Amor do check-in ao check-out. E mesmo que triste, o do check-out não é menos gostoso. Tá bom, é um pouquinho menos, até porque aí, o sangue já tá mais friozinho. O que mais gosto, se você quer saber, são dos beijos de horas e horas sob efeito da "hóstia colorida", os beijos que pra mim, transcendem o espírito. Essa é a nossa religião em seus rituais sinérgicos, e segundo a doutrina tranquilamente infringível, a preguiça é a maior de todas as virtudes. Um estalar dos dedos é o fruto simbólico da atitude. "O mato é a meta", (Lucas 11:10). Amém.
Eu sei, são detalhes sórdidos, coisas nossas e de mais ninguém, coisas do nosso universo inventado que se completa, feito a junção do "meio cheio" com o "meio vazio". Mas não é mais segredo pra você, pra ninguém, e de repente, nem pra mim, que o universo inventado vai tomando lugares inapropriados, ele vai crescendo como um bicho preenchendo espaço e gritando. E a minha vontade momentânea é mesmo estampar ao mundo inteiro a verdade: eu amo esse universo inventado, porque ele é meu, porque amar é maior do que tudo, é a coisa mais louca que existe. "Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder/O que não dá mais pra ocultar e eu não posso mais calar...", pronto. A tua voz de timbre baixo no meu ouvido me arrepia e responde às minhas necessidades mais íntimas, ao inconsciente duvidoso, às expectativas teatrais e exageradas como ninguém o faz. Paixão de mim tem que ser alucinada, rasgada, fodida, você derrama, rasga, fode. Eu posso até desejar e mentalizar outros homens, só que é só carnalidade. Você me faz sucumbir de amor, me faz chorar, você me conhece, sabe o que eu quero, como eu quero, quando. E eu te conheço, vou te conhecendo, colecionando aqui dentro algumas informações sobre o senhor.
Porém, psiu, olha além agora: mais do que meu amante, minha insanidade, você é o meu melhor amigo. Eu poderia até agradecer por seres sempre todo ouvidos pra mim, por sobre certas coisas que eu te digo, você me perguntar uma série de contradições maduras que me fazem refletir a meu respeito, e que me induzem a falar ainda mais, e dividir com você tudo que em mim cabe. Confio em ti meus segredos, minhas lembranças, meus pensamentos. Você diz que é recíproco, e eu acredito. Adoro saber de você, adoro quando você dispara a conversar e quando diz, no final, "desculpa aí, falei pra caralho", mesmo que nunca passe da conta. Outra, cê diz que não sonha, mas nos meus braços sonha alto, fazendo com que me sinta super especial. Então, "eu poderia até agradecer", mas acho que por essas coisas não se agradece não, que daí perde a graça. Só quero que você saiba mais uma vez que a nossa afinidade, nossa amizade é uma das coisas mais bonitas que eu tenho.
Repenso e trepenso do começo ao fim. Disse várias vezes que você é o amor da minha vida naquelas horas embriagadas que só você sabe quais. O lance é que não dá pra saber e não é legal dizer sem ter certeza, já que a vida vira e revira, já que eu sou uma menininha volúvel (risos). Ainda bem, afinal, essa é a verdadeira existência da liberdade: a liberdade da existência. Tá aí um dos jogos de palavras mais sérios e reais que eu já fiz. A liberdade é conhecer, é poder ir, vir, surpreender-se, ousar. Só assim pode haver encantamento. Mas se eu digo que você é (o amor da minha vida, outra coisa muito séria), é porque às vezes sinto, às vezes respiro a possibilidade. Sinto a energia vermelha e a energia azul. E eu vejo o passar de todos esses anos ao seu "lado", sempre juntos, e quero tão mais de você, a cada encontro clandestino...
Sua carta me fez ficar molenga de frenesi, como tudo o que quase todos os dias me escreves. E escreves tão lindamente, fico boba. Queria ser mulher fatal, fazer voto de silêncio, esconder de você as porções frágeis de mim e ao mesmo tempo os vulcões em erupção, te deixando só com o que é neutro e normal, vai ver assim você me amaria mais e mais e mais. Dizem em alguns lugares (até a psicologia diz) que mulher sem mistério é paia, ninguém gosta. Mas sei lá, não dá, não vejo mais sentido em enganar ou omitir nadinha de você. É como fazê-los a mim mesma. Eu sou você, você é eu, somos duas coisas numa só, um símbolo do infinito. Então deixa pra lá, aqui estou, de coração aberto e acelerado, pra você, que é a minha metade. Você, que é o meu amor maior nessa vida inteira e em outras, talvez. E se por algum motivo não aparente, algum dia a coisa se romper, não puder ser perene, ou, de preferência verbal e coesiva, não pudermos mais ser o símbolo do infinito: "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure..."
Te amo feito leoa enjaulada, te amo que dói, te amo de tudo. Te amo.
Há tempos não leio nada tão visceral. Intenso. Você me amarrou em palavras, menina. E, num instante e noutro, me trouxe a sensação de que escrevia sobre mim (eu sendo o moço, no caso). "Te amo que dói", já disse Vinicius em outras palavras: "Pergunte ao seu orixá, amor só é bom se doer". Que doa. Que arda. Que seja lindo, porque se não for lindo, não há de ser amor.
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