domingo, 19 de janeiro de 2014

Ninfomaníaca - Lars Von Trier

Uma observação simples, que tive vontade de escrever...

Não me lembro da última vez ou não sei se houve aquela em que vi os cinemas lotados esgotando ingressos de um filme cult, polido. O povo em massa, senso comum não dá muita bola pras particularidades às vezes bizarras que brotam da mente desses diretores. Cansei de ver filas loucas e comentários incessantes sobre os X-Mans, Se Beber Não Case, Harry Potter, etc, tudo aquilo hollywoodiano que o mundo inteiro conhece e tem uma opinião sobre na ponta da língua; nada contra, só constando. Mas dessa vez, qualquer tipo de gente de todo canto veio alvoroçado de curioso (as tias das bilheterias sabem) pra descobrir a nova idéia de Lars Von Trier que andou alardeando meios informativos e alimentando expectativas. Faz sentido, afinal, se propôs tão sexual. "Sexo é assunto popular". A minha expectativa também já era grande desde que soube, e apesar disso, inconscientemente esperei por nada mais que algo peculiarmente óbvio, provocador, uma história corrida sem mistérios ou interrupções, tudo acontecendo explícita e diretamente e chocando os olhos nas cadeiras. Não foi bem assim. A forma com que se desenrola é sutil, intercalada, investigadora da causa das semelhanças, uma sucessão de epifanias. Não esperei por tanta angústia, tanta solidão penetrável, por me desmanchar em lágrimas na cena em que deitado na cama do hospital, o pai conta sobre a folha da árvore "pela centésima vez", eu, que colecionava folhas de árvores na oitava série e também as colava num caderno. E a simultânea importância de Seligman? (um velho que conversa com Joe, a protagonista). Pura graça melancólica seus croissants comidos com garfo e a poesia impressionante das analogias que agarram-se e sustentam as vivências da Joe. O diálogo entre os dois é de tanto conteúdo que pode ser que algum detalhe se perca: é um filme pra ser assistido mais de uma vez. O final me deixou uma indagação que eu prefiro manter secreta, porque falar de final de filme pros outros é idiota. Gosto de quase tudo o que da obra do diretor tive oportunidade de assistir, mas acho que o cara tava inspirado dessa vez, ou simplesmente progrediu, amadureceu na essência. Trilha sonora e fotografia também são o bicho, mas isso não é novidade se tratando do Lars. E chega de puxar o saco dele por hoje. Sugiro que se assista junto à uma garrafa de vinho.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A maldição do jornalista

Por Marcelo Rubens Paiva (em a segunda vez que te conheci, pág 40);

"1. Não terá vida pessoal, familiar ou sentimental.
2. Não verá o filho crescer.
3. Não terá feriado, fins de semana ou outro tipo de folga.
4. Terá gastrite, se tiver sorte. Se for como os demais, terá úlcera.
5. A pressa será o único amigo, e as refeições principais serão sanduíches, pizzas e pães de queijo.
6. Os cabelos ficarão brancos antes do tempo. Se sobrarem cabelos.
7. Sua sanidade mental será posta em xeque antes que complete cinco anos de trabalho.
8. Dormir será considerado período de folga; logo, não dormirá.
9. Trabalho será o assunto preferido, se não o único.
10. As pessoas serão divididas em dois tipos: as que entendem de comunicação e as que não.
11. A máquina de café será a melhor colega de trabalho, porém, a cafeína não fará mais efeito.
12. Happy Hours serão excelentes oportunidades de ter algum tipo de contato com outras pessoas loucas como você.
13. Sonhará com sua matéria. E não raramente mudará o título dela e algumas palavras enquanto dorme.
14. Exibirá olheiras como troféu de guerra.
15. E o pior, inexplicavelmente, gostará disso tudo."

Olha só o que me espera... É isso mesmo??? De qualquer forma, ansiosa pro início das aulas.

P.S: O livro é ótimo. Divertido e inteligente. Recomendo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Temp(o)estade

me olham, os cegos olhos do tempo...
com a sua tendência de ser de uma branca beleza triste,
sua irreverência silenciosa, manchando de bruma o céu de crepom...
me olham alegóricos os cegos olhos de quem roubou minhas palavras
e pouco a pouco desbota a cor desse espaço;
o tempo de olhos cegos
me fez de uns olhos desencontrados...

não sei se preciso ser ninada,
surpreendida, rasgada, virada do avesso...
de todas as coisas do mundo,
não sei de qual delas preciso.
sei que estou faminta de mim.
faminta da coisa xis que transborde
aquilo que no meu peito o tempo já completou...

eu sou um pedaço de mar,
me movo de ondas
me mordo em ímpeto e me morro um pouco a cada segundo
desse tempo frio,
vazio
e lento
que passa...