Uma observação simples, que tive vontade de escrever...
Não me lembro da última vez ou não sei se houve aquela em que vi os cinemas lotados esgotando ingressos de um filme cult, polido. O povo em massa, senso comum não dá muita bola pras particularidades às vezes bizarras que brotam da mente desses diretores. Cansei de ver filas loucas e comentários incessantes sobre os X-Mans, Se Beber Não Case, Harry Potter, etc, tudo aquilo hollywoodiano que o mundo inteiro conhece e tem uma opinião sobre na ponta da língua; nada contra, só constando. Mas dessa vez, qualquer tipo de gente de todo canto veio alvoroçado de curioso (as tias das bilheterias sabem) pra descobrir a nova idéia de Lars Von Trier que andou alardeando meios informativos e alimentando expectativas. Faz sentido, afinal, se propôs tão sexual. "Sexo é assunto popular". A minha expectativa também já era grande desde que soube, e apesar disso, inconscientemente esperei por nada mais que algo peculiarmente óbvio, provocador, uma história corrida sem mistérios ou interrupções, tudo acontecendo explícita e diretamente e chocando os olhos nas cadeiras. Não foi bem assim. A forma com que se desenrola é sutil, intercalada, investigadora da causa das semelhanças, uma sucessão de epifanias. Não esperei por tanta angústia, tanta solidão penetrável, por me desmanchar em lágrimas na cena em que deitado na cama do hospital, o pai conta sobre a folha da árvore "pela centésima vez", eu, que colecionava folhas de árvores na oitava série e também as colava num caderno. E a simultânea importância de Seligman? (um velho que conversa com Joe, a protagonista). Pura graça melancólica seus croissants comidos com garfo e a poesia impressionante das analogias que agarram-se e sustentam as vivências da Joe. O diálogo entre os dois é de tanto conteúdo que pode ser que algum detalhe se perca: é um filme pra ser assistido mais de uma vez. O final me deixou uma indagação que eu prefiro manter secreta, porque falar de final de filme pros outros é idiota. Gosto de quase tudo o que da obra do diretor tive oportunidade de assistir, mas acho que o cara tava inspirado dessa vez, ou simplesmente progrediu, amadureceu na essência. Trilha sonora e fotografia também são o bicho, mas isso não é novidade se tratando do Lars. E chega de puxar o saco dele por hoje. Sugiro que se assista junto à uma garrafa de vinho.