corpo estranho no meu corpo.
pesa, denso, sobre o meu seio
invade sem pedir licença.
corpo etéreo, palpável, cobre a luz, faz sombra.
o olhar vacila.
uma certa química irresistível, ele traz,
sabe cortejar. sabe enfeitiçar.
não faz barulho, não faz alarde, mas é certeiro,
faz com força, usa dos dentes, das unhas,
do poder que possui, quase com violência.
preenche alguns buracos,
cava outros bem mais fundos.
me veste feito uma peça escura,
me despe como ninguém, na frente de todos.
nua de alma, transparente, eu fico.
humilhada.
um troço largado
flutuante no espaço.
antes de ir embora, o corpo me beija os olhos,
me assegura de que volta sem demora,
e os fecha, lentamente...
"dorme que passa, minha filha", eu logo me lembro.
e passa. o sono leva...
melancolia é o seu nome.