quinta-feira, 6 de agosto de 2015

De passagem

Me encanta a experiência, o olhar de sabedoria, a intensidade do pronunciar lento de palavras ébrias sobrepondo o som da música.
Me encanta o novo, o desconhecido surpreendente e inapropriado.
Me encanta a madrugada estrelada, as idéias que são destinadas somente a emergir do silêncio, da solidão, do perfume do incenso em conjunto.
Me encanta o sabor insistente do vinho tinto, o cheiro do sexo, o cheiro do amanhecer apesar da angústia que este me causa.
Me encanta a força das pessoas, capazes de seguir tocando as suas rotinas ainda que consumidas pela desilusão de amores, perdas, fracassos. A força das pessoas quando abraçam causas e se envolvem com as suas façanhas de forma que fazem parecer não existir apatia ou desinteresse.
Me encanta o desenho das asas das verdadeiras borboletas, o barulho calmante e infinito das ondas, que ligam lugares distantes e distintíssimos através da grandeza do oceano.
Me encanta o instinto dos animais, dentre eles a independência dos gatos, me encanta a espontaneidade das crianças, as pequenas plantinhas que nascem do concreto.
Me encanta a metafísica, a imensa incógnita do universo: o que é tudo isso?
Me encantam os filmes que permanecem no pensamento durante semanas, o elevar alucinado da consciência, o intenso sentir do próprio corpo.
Me encanta pisar a terra úmida.
Me encantam bons autores escondidos.
Boa comida. Bons lençóis.
Me encanta o preto e branco da fotografia bem como o espalhar efusivo da aquarela.
A velocidade dos automóveis nas BRs.
A pele negra.
O tilintar de taças.
O barulho da chuva.
Me encanta a liberdade.
Me encanta o mundo.
Me encanta, sobretudo, estar só de passagem.
No entanto, acho o tempo curto.

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