quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Disfarce de si mesma

(Ler ao som de Milton Nascimento - Francisco)



Desceu do ônibus lentamente, pé ante pé, como quem ao invés de ansiar a chegada, olha desapressada a viagem pela janela. Vinha com uma mala preta e grande de longa estadia e os olhos cansados da crença ferida pelo mundo banalizado. Não era a primeira vez que após tanto tempo fora, não tinha braços para recebê-la no desembarque, mas ainda assim, disfarçando de si mesma, olhou em volta na esperança de encontrar um rosto conhecido. Um sorriso de reencontro. Os velhinhos pegavam suas velhinhas nos braços saudosos e vice-versa e as mães e os filhos ansiosos e cheios de perguntas seguravam os rostos uns dos outros com cuidado eufórico. Ela, apenas, seguia seu caminho de volta sozinha. Um homem bondoso chegou a oferecer ajuda com a mala gigantesca, mas mulher forte e solitária que era, se bastava e fez que não com a cabeça.

Já haviam se passado pouco mais de quatro décadas e a única lembrança de total entrega a outra pele, outro cheiro, de nudez de corpo e alma e cabelos soltos ainda a atormentava junto a culpa e o desejo e a culpa reincidente por sentí-lo. Se culpava, ainda, por de vez em quando ter repentinas imaginações férteis com os amantes que circulavam a sua presença ocasionalmente. Na igreja, na vizinhança, no parque ensolarado aos domingos. E logo em seguida, como autopunição, procurava na memória o ardor das chibatadas e a amargura da comida que serviam de castigo na sua meninice.

Teimou durante quase toda a juventude com a desgraça da prisão que foi condicionada ainda tão pequena. No entanto, decidiu resignar e entrar nos eixos impostos pela mãe depois do constrangimento da noite jamais esquecida: via e revia e trevia a cara furiosa da irmã Lurdes a surpreendendo no quartinho onde perdia a virgindade com seu amado, já com a vara na mão. Augusto era um carpinteiro do convento, alto e de pele dourada, mãos grandíssimas e sotaque baiano. Apanhou nua na frente do moço e rezou cento e cinquenta ave-marias e cento e vinte pai-nossos para esquecê-lo. Parece que nem os anjos e nem mesmo os demônios estavam interessados em roubar e fazer sumiço do seu trauma.

Fez o que supostamente devia fazer e vestiu o hábito e os paramentos. Estava absolutamente proibida de flertar, fazer amor, se tocar, viver aventuras, falar palavrões, beber álcool, tragar fumaça, apagar no sofá assistindo a um programa televisivo qualquer sem antes rezar e acender velas ou comer faminta sem pensar em agradecimentos a deus pela bênção sagrada. Acontece que a freira libidinosa vivia entre a fé e a angústia, o correto e a curiosidade. Seus pezinhos tão pequenos dançavam delicadamente sobre essa linha frágil na qual aprendeu a se equilibrar numa espécie de movimento doente que construiu uma imagem externa tão dura e intocável. Tudo o que sentia era segredo consciente dos seus pecados.

Mas também tinha seus prazeres. Regava plantinhas com amor e cozinhava um feijãozinho como ninguém, o qual dava as sobras para os pedreiros da rua ou as vizinhas doentes que liam para ela romances religiosos e penteavam seus longos cabelos na maioria do tempo escondidos. Aliás, tinha paixão pelos seus imensos cabelos. Perdia horas cuidando dos fios esbranquiçados e estranhamente sedosos, muito mais sedosos do que a pelagem alaranjada do seu gato chamado Isaac. Ela leu que o nome bíblico significa “filho da alegria”. E ele bem que lhe dava alegria, se esfregando entre as suas pernas a pedidos de uma tigela de leite ou ronronando com ternura enroladinho na sua cama de lençóis branquíssimos. Não era uma dessas freiras convencionais que dão conselhos e dizem aos outros o que fazer. Não se sentia preparada para isso. Era simplesmente boa ouvinte. Dava segurança silente aos jovens que vinham cheios de medo falar das suas preocupações e noites insones. O tempo parecia passar diferente na sua presença.

Naquele fim de tarde chuvosa, chegou de viagem no convento e, embalada pelo lusco-fusco do anoitecer que traz à tona epifanias grandiosas, percebeu que as suas alegrias não eram assim tão vulneráveis. Conhecia o processo de vida das plantas e a naturalidade dos seus ciclos. Valorizou a relação não-dependente e construtiva da amizade e encarou os olhinhos de Isaac como os braços que a esperavam ansiosamente, apesar de não ser na rodoviária. Deitou na cama branquinha e suspirou profundamente como se deitasse em nuvens pálidas. Só se sentiu tão plena daquele jeito quando, jovem e linda, se entregou à boca deliciosa de Augusto. Mas nesse instante, tudo o que queria era estar só.

Ela então entendeu que deus na verdade estava presente em momentos como esse. No pôr-do-Sol, na sensação de plenitude, no sabor mágico do temperinho da horta, nas frases que escapam sem nenhuma intenção e deixam no ar, como quem deixa algo em cima da mesa, um significado virtuoso. Deus era, finalmente, a poesia que nunca tinha a abandonado.

Ainda assim, se sentia sozinha. Mas prometeu a si mesma que nunca mais sentiria culpa.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Hora tênue

na hora tênue entre aqui e o lado de lá
venho dirigindo meu caminho inevitável
estrada nua, escura
em direção oposta pro mar
venho pensando na leveza contraditória do vento pesado
da beira do pélago
na ambiguidade trôpega que me consiste enquanto caráter humano
em toda sua nudez incondicional enlaçada com a realidade subjetiva
venho confiando na minha proteção porque a sinto perto de mim
e confiando no tempo como grande sábio
ainda que autor de tanta dor; escritor certeiro
desprovido de pudor
venho tragando o cigarro, sentindo o prazer que eriça meus pelos
de ser inteira, de embalar na música do velho que tem tanto a dizer
e junto a ele compreender os sinais miúdos de coisas tão profundas
de passos que desaparecem na calçada
e então chegar em casa
e sentar só mais um minutinho
ao lado do silêncio