(Ler ao som de Milton Nascimento - Francisco)
Desceu do ônibus lentamente, pé ante pé, como quem ao invés de ansiar a chegada, olha desapressada a viagem pela janela. Vinha com uma mala preta e grande de longa estadia e os olhos cansados da crença ferida pelo mundo banalizado. Não era a primeira vez que após tanto tempo fora, não tinha braços para recebê-la no desembarque, mas ainda assim, disfarçando de si mesma, olhou em volta na esperança de encontrar um rosto conhecido. Um sorriso de reencontro. Os velhinhos pegavam suas velhinhas nos braços saudosos e vice-versa e as mães e os filhos ansiosos e cheios de perguntas seguravam os rostos uns dos outros com cuidado eufórico. Ela, apenas, seguia seu caminho de volta sozinha. Um homem bondoso chegou a oferecer ajuda com a mala gigantesca, mas mulher forte e solitária que era, se bastava e fez que não com a cabeça.
Já haviam se passado pouco mais de quatro décadas e a única lembrança de total entrega a outra pele, outro cheiro, de nudez de corpo e alma e cabelos soltos ainda a atormentava junto a culpa e o desejo e a culpa reincidente por sentí-lo. Se culpava, ainda, por de vez em quando ter repentinas imaginações férteis com os amantes que circulavam a sua presença ocasionalmente. Na igreja, na vizinhança, no parque ensolarado aos domingos. E logo em seguida, como autopunição, procurava na memória o ardor das chibatadas e a amargura da comida que serviam de castigo na sua meninice.
Teimou durante quase toda a juventude com a desgraça da prisão que foi condicionada ainda tão pequena. No entanto, decidiu resignar e entrar nos eixos impostos pela mãe depois do constrangimento da noite jamais esquecida: via e revia e trevia a cara furiosa da irmã Lurdes a surpreendendo no quartinho onde perdia a virgindade com seu amado, já com a vara na mão. Augusto era um carpinteiro do convento, alto e de pele dourada, mãos grandíssimas e sotaque baiano. Apanhou nua na frente do moço e rezou cento e cinquenta ave-marias e cento e vinte pai-nossos para esquecê-lo. Parece que nem os anjos e nem mesmo os demônios estavam interessados em roubar e fazer sumiço do seu trauma.
Fez o que supostamente devia fazer e vestiu o hábito e os paramentos. Estava absolutamente proibida de flertar, fazer amor, se tocar, viver aventuras, falar palavrões, beber álcool, tragar fumaça, apagar no sofá assistindo a um programa televisivo qualquer sem antes rezar e acender velas ou comer faminta sem pensar em agradecimentos a deus pela bênção sagrada. Acontece que a freira libidinosa vivia entre a fé e a angústia, o correto e a curiosidade. Seus pezinhos tão pequenos dançavam delicadamente sobre essa linha frágil na qual aprendeu a se equilibrar numa espécie de movimento doente que construiu uma imagem externa tão dura e intocável. Tudo o que sentia era segredo consciente dos seus pecados.
Mas também tinha seus prazeres. Regava plantinhas com amor e cozinhava um feijãozinho como ninguém, o qual dava as sobras para os pedreiros da rua ou as vizinhas doentes que liam para ela romances religiosos e penteavam seus longos cabelos na maioria do tempo escondidos. Aliás, tinha paixão pelos seus imensos cabelos. Perdia horas cuidando dos fios esbranquiçados e estranhamente sedosos, muito mais sedosos do que a pelagem alaranjada do seu gato chamado Isaac. Ela leu que o nome bíblico significa “filho da alegria”. E ele bem que lhe dava alegria, se esfregando entre as suas pernas a pedidos de uma tigela de leite ou ronronando com ternura enroladinho na sua cama de lençóis branquíssimos. Não era uma dessas freiras convencionais que dão conselhos e dizem aos outros o que fazer. Não se sentia preparada para isso. Era simplesmente boa ouvinte. Dava segurança silente aos jovens que vinham cheios de medo falar das suas preocupações e noites insones. O tempo parecia passar diferente na sua presença.
Naquele fim de tarde chuvosa, chegou de viagem no convento e, embalada pelo lusco-fusco do anoitecer que traz à tona epifanias grandiosas, percebeu que as suas alegrias não eram assim tão vulneráveis. Conhecia o processo de vida das plantas e a naturalidade dos seus ciclos. Valorizou a relação não-dependente e construtiva da amizade e encarou os olhinhos de Isaac como os braços que a esperavam ansiosamente, apesar de não ser na rodoviária. Deitou na cama branquinha e suspirou profundamente como se deitasse em nuvens pálidas. Só se sentiu tão plena daquele jeito quando, jovem e linda, se entregou à boca deliciosa de Augusto. Mas nesse instante, tudo o que queria era estar só.
Ela então entendeu que deus na verdade estava presente em momentos como esse. No pôr-do-Sol, na sensação de plenitude, no sabor mágico do temperinho da horta, nas frases que escapam sem nenhuma intenção e deixam no ar, como quem deixa algo em cima da mesa, um significado virtuoso. Deus era, finalmente, a poesia que nunca tinha a abandonado.
Ainda assim, se sentia sozinha. Mas prometeu a si mesma que nunca mais sentiria culpa.

Amiga, já falei que tu é foda? Pois permita-me: Tu é foda. Que delicinha de conto...
ResponderExcluirParabéns, Gigi.
Beijocas.
Que belo texto!! gostei muito haha continue escrevendo mais ;)
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