quinta-feira, 29 de junho de 2017

personagem fictício

debruçava na janela atuando um pouso sereno
de passarinho que olha a vida longilínea
e não conhece as palavras de roleta-russa.
reservava uma porçãozinha de minutos pra fingir não ser luxo
sentir a terra girando sob as pequenas andadoras.
às vezes pensava que abandonaria todos os livros, todas as sandálias
pra cantar sem saber a letra e se equilibrar nos fios:
ouviu numa mesa de bar que a ignorância é uma bênção
pudera ter ignorância de passarinho.
a essa altura, acreditava que o ser-humano é inferior a todas os animais
sua complexidade egoísta não vale o pó da calçada.
entre o vão da engrenagem, lampeja o vôo rasante
palpita e se ajeita na ponta do salto fitando o ocultismo da esfera,
suspirando trêmula quando o telefone toca estridente no fundo da sala.
olha para frente e olha para trás;
é hora de se despir das penas
guardando seu personagem fictício no bolso da imaginação secreta.




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