debruçava na janela atuando um pouso sereno
de passarinho que olha a vida longilínea
e não conhece as palavras de roleta-russa.
reservava uma porçãozinha de minutos pra fingir não ser luxo
sentir a terra girando sob as pequenas andadoras.
às vezes pensava que abandonaria todos os livros, todas as sandálias
pra cantar sem saber a letra e se equilibrar nos fios:
ouviu numa mesa de bar que a ignorância é uma bênção
pudera ter ignorância de passarinho.
a essa altura, acreditava que o ser-humano é inferior a todas os animais
sua complexidade egoísta não vale o pó da calçada.
entre o vão da engrenagem, lampeja o vôo rasante
palpita e se ajeita na ponta do salto fitando o ocultismo da esfera,
suspirando trêmula quando o telefone toca estridente no fundo da sala.
olha para frente e olha para trás;
é hora de se despir das penas
guardando seu personagem fictício no bolso da imaginação secreta.
Talvez
quinta-feira, 29 de junho de 2017
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
No limits
I actually really like crazy people. I identify with them souls. Those souls that never look at anything without give to it an especial meaning. That make choices based in their bloods, in their fever. I've been with crazy people during all my life, since I was a baby girl. When I grew up, streets where the best scenary, where all the fucking feelings was discussed between booze and kisses and drugs and screams. The urgency of crazy people is something that I understand so well. And I love it. Time is not something made to lose. Words were not made to be unexplained. It should be tasted, just like every experience that life can provide. To crazy people, being something little in the middle of universe doesn't mean their lifes represent a little part of it all. We are immeasurable. It's a required awareness. And maybe it's the reason for all the chaos they create around their sadnesses. Every single anguish of human-being must be shouted, divided.
If crazy people had limit, they wouldn't be crazy people. Regular people will never know how to live with true passion. Passion has no limits. The problem is that it often hurt you.
Novo endereço
Criei um Medium e estou aparecendo por lá semanalmente, pra postar opinião social, crônica e idéia. Já tem material <3 Por aqui, continuo com as poesias, notas corridas e coisas mais intimistas. ;*
sábado, 7 de janeiro de 2017
Poema triste
deposito em minhas crenças
a esperança de que me alinhem
o misterioso espaço da inovação, uma poesia que aparente dizer tudo
projetos inacabados, um planeta perdido no universo
me entrego aos desejos desse deus sarcástico, meio sumido
como sempre fiz.
no entanto, não encontro nesse novo ano nada além de um novo número
não encontro nesse quarto nada além do copo d'água sobre a cabeceira
e o controle remoto nada convidativo.
entre a costela e o coração-turbilhão,
entre uma e outra sobrancelha, uma e outra vértebra
se esconde em mim um poema triste
que pouco sai pra passear.
desde então eu vivo escrevendo este mesmo poema em diferentes versões;
versões mansas, ferinas,
eróticas, bem ou mal calculadas
e até quietas.
todas as versões possíveis de uma boa geminiana com a sua coleção
de palavras preferidas.
no meio da janela, um pensamento:
é ainda pior sofrer nas noites quentes.
o inverno, ao menos, sabe atuar.
a esperança de que me alinhem
o misterioso espaço da inovação, uma poesia que aparente dizer tudo
projetos inacabados, um planeta perdido no universo
me entrego aos desejos desse deus sarcástico, meio sumido
como sempre fiz.
no entanto, não encontro nesse novo ano nada além de um novo número
não encontro nesse quarto nada além do copo d'água sobre a cabeceira
e o controle remoto nada convidativo.
entre a costela e o coração-turbilhão,
entre uma e outra sobrancelha, uma e outra vértebra
se esconde em mim um poema triste
que pouco sai pra passear.
desde então eu vivo escrevendo este mesmo poema em diferentes versões;
versões mansas, ferinas,
eróticas, bem ou mal calculadas
e até quietas.
todas as versões possíveis de uma boa geminiana com a sua coleção
de palavras preferidas.
no meio da janela, um pensamento:
é ainda pior sofrer nas noites quentes.
o inverno, ao menos, sabe atuar.
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Disfarce de si mesma
(Ler ao som de Milton Nascimento - Francisco)
Desceu do ônibus lentamente, pé ante pé, como quem ao invés de ansiar a chegada, olha desapressada a viagem pela janela. Vinha com uma mala preta e grande de longa estadia e os olhos cansados da crença ferida pelo mundo banalizado. Não era a primeira vez que após tanto tempo fora, não tinha braços para recebê-la no desembarque, mas ainda assim, disfarçando de si mesma, olhou em volta na esperança de encontrar um rosto conhecido. Um sorriso de reencontro. Os velhinhos pegavam suas velhinhas nos braços saudosos e vice-versa e as mães e os filhos ansiosos e cheios de perguntas seguravam os rostos uns dos outros com cuidado eufórico. Ela, apenas, seguia seu caminho de volta sozinha. Um homem bondoso chegou a oferecer ajuda com a mala gigantesca, mas mulher forte e solitária que era, se bastava e fez que não com a cabeça.
Já haviam se passado pouco mais de quatro décadas e a única lembrança de total entrega a outra pele, outro cheiro, de nudez de corpo e alma e cabelos soltos ainda a atormentava junto a culpa e o desejo e a culpa reincidente por sentí-lo. Se culpava, ainda, por de vez em quando ter repentinas imaginações férteis com os amantes que circulavam a sua presença ocasionalmente. Na igreja, na vizinhança, no parque ensolarado aos domingos. E logo em seguida, como autopunição, procurava na memória o ardor das chibatadas e a amargura da comida que serviam de castigo na sua meninice.
Teimou durante quase toda a juventude com a desgraça da prisão que foi condicionada ainda tão pequena. No entanto, decidiu resignar e entrar nos eixos impostos pela mãe depois do constrangimento da noite jamais esquecida: via e revia e trevia a cara furiosa da irmã Lurdes a surpreendendo no quartinho onde perdia a virgindade com seu amado, já com a vara na mão. Augusto era um carpinteiro do convento, alto e de pele dourada, mãos grandíssimas e sotaque baiano. Apanhou nua na frente do moço e rezou cento e cinquenta ave-marias e cento e vinte pai-nossos para esquecê-lo. Parece que nem os anjos e nem mesmo os demônios estavam interessados em roubar e fazer sumiço do seu trauma.
Fez o que supostamente devia fazer e vestiu o hábito e os paramentos. Estava absolutamente proibida de flertar, fazer amor, se tocar, viver aventuras, falar palavrões, beber álcool, tragar fumaça, apagar no sofá assistindo a um programa televisivo qualquer sem antes rezar e acender velas ou comer faminta sem pensar em agradecimentos a deus pela bênção sagrada. Acontece que a freira libidinosa vivia entre a fé e a angústia, o correto e a curiosidade. Seus pezinhos tão pequenos dançavam delicadamente sobre essa linha frágil na qual aprendeu a se equilibrar numa espécie de movimento doente que construiu uma imagem externa tão dura e intocável. Tudo o que sentia era segredo consciente dos seus pecados.
Mas também tinha seus prazeres. Regava plantinhas com amor e cozinhava um feijãozinho como ninguém, o qual dava as sobras para os pedreiros da rua ou as vizinhas doentes que liam para ela romances religiosos e penteavam seus longos cabelos na maioria do tempo escondidos. Aliás, tinha paixão pelos seus imensos cabelos. Perdia horas cuidando dos fios esbranquiçados e estranhamente sedosos, muito mais sedosos do que a pelagem alaranjada do seu gato chamado Isaac. Ela leu que o nome bíblico significa “filho da alegria”. E ele bem que lhe dava alegria, se esfregando entre as suas pernas a pedidos de uma tigela de leite ou ronronando com ternura enroladinho na sua cama de lençóis branquíssimos. Não era uma dessas freiras convencionais que dão conselhos e dizem aos outros o que fazer. Não se sentia preparada para isso. Era simplesmente boa ouvinte. Dava segurança silente aos jovens que vinham cheios de medo falar das suas preocupações e noites insones. O tempo parecia passar diferente na sua presença.
Naquele fim de tarde chuvosa, chegou de viagem no convento e, embalada pelo lusco-fusco do anoitecer que traz à tona epifanias grandiosas, percebeu que as suas alegrias não eram assim tão vulneráveis. Conhecia o processo de vida das plantas e a naturalidade dos seus ciclos. Valorizou a relação não-dependente e construtiva da amizade e encarou os olhinhos de Isaac como os braços que a esperavam ansiosamente, apesar de não ser na rodoviária. Deitou na cama branquinha e suspirou profundamente como se deitasse em nuvens pálidas. Só se sentiu tão plena daquele jeito quando, jovem e linda, se entregou à boca deliciosa de Augusto. Mas nesse instante, tudo o que queria era estar só.
Ela então entendeu que deus na verdade estava presente em momentos como esse. No pôr-do-Sol, na sensação de plenitude, no sabor mágico do temperinho da horta, nas frases que escapam sem nenhuma intenção e deixam no ar, como quem deixa algo em cima da mesa, um significado virtuoso. Deus era, finalmente, a poesia que nunca tinha a abandonado.
Ainda assim, se sentia sozinha. Mas prometeu a si mesma que nunca mais sentiria culpa.
terça-feira, 8 de novembro de 2016
Hora tênue
na hora tênue entre aqui e o lado de lá
venho dirigindo meu caminho inevitável
estrada nua, escura
em direção oposta pro mar
venho pensando na leveza contraditória do vento pesado
da beira do pélago
na ambiguidade trôpega que me consiste enquanto caráter humano
em toda sua nudez incondicional enlaçada com a realidade subjetiva
venho confiando na minha proteção porque a sinto perto de mim
e confiando no tempo como grande sábio
ainda que autor de tanta dor; escritor certeiro
desprovido de pudor
venho tragando o cigarro, sentindo o prazer que eriça meus pelos
de ser inteira, de embalar na música do velho que tem tanto a dizer
e junto a ele compreender os sinais miúdos de coisas tão profundas
de passos que desaparecem na calçada
e então chegar em casa
e sentar só mais um minutinho
ao lado do silêncio
venho dirigindo meu caminho inevitável
estrada nua, escura
em direção oposta pro mar
venho pensando na leveza contraditória do vento pesado
da beira do pélago
na ambiguidade trôpega que me consiste enquanto caráter humano
em toda sua nudez incondicional enlaçada com a realidade subjetiva
venho confiando na minha proteção porque a sinto perto de mim
e confiando no tempo como grande sábio
ainda que autor de tanta dor; escritor certeiro
desprovido de pudor
venho tragando o cigarro, sentindo o prazer que eriça meus pelos
de ser inteira, de embalar na música do velho que tem tanto a dizer
e junto a ele compreender os sinais miúdos de coisas tão profundas
de passos que desaparecem na calçada
e então chegar em casa
e sentar só mais um minutinho
ao lado do silêncio
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Entre a truculência e o cuidado
devíamos reinventar a saudade
a pureza ferida de um termo sangrento e único
temos aqui, ao menos, a esmola de poder fazê-la em letra substantiva
escrevê-la num papelzinho e dobrar e redobrar como quem diminui o mar numa fotografia.
devíamos reler "a arte de perder" num processo austero e consciente
e entender a passagem obrigatória, porém finita, de determinadas coisas que tomam seu rumo em silêncio numa noite fria,
juntando roupas, girando lentamente a maçaneta,
largando seu cheiro para trás.
ainda não entendi, na vida, essa dualidade que vem com o amor,
que transita entre o pior egoísmo e a coisa mais bonita que eu já vi.
de algum lugar aí, entre a truculência e o cuidado, nasceu a saudade
precisamos olhá-la agora com olhos bondosos e confiantes
sorrir pra ela com alívio por não tê-la feito uma lâmina,
mas assimilá-la ao sereno vívido de uma outra noite em que se gosta da solidão
e um lampejo rodopia na sua sutil eternidade.
a pureza ferida de um termo sangrento e único
temos aqui, ao menos, a esmola de poder fazê-la em letra substantiva
escrevê-la num papelzinho e dobrar e redobrar como quem diminui o mar numa fotografia.
devíamos reler "a arte de perder" num processo austero e consciente
e entender a passagem obrigatória, porém finita, de determinadas coisas que tomam seu rumo em silêncio numa noite fria,
juntando roupas, girando lentamente a maçaneta,
largando seu cheiro para trás.
ainda não entendi, na vida, essa dualidade que vem com o amor,
que transita entre o pior egoísmo e a coisa mais bonita que eu já vi.
de algum lugar aí, entre a truculência e o cuidado, nasceu a saudade
precisamos olhá-la agora com olhos bondosos e confiantes
sorrir pra ela com alívio por não tê-la feito uma lâmina,
mas assimilá-la ao sereno vívido de uma outra noite em que se gosta da solidão
e um lampejo rodopia na sua sutil eternidade.
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