terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Inscrição para cobertura do Festival de Teatro: "Um pequeno texto sobre o seu assunto preferido"

O papel do poeta ao dividir a sua poesia é ser uma janela de escape da percepção banal e cômoda. Tudo é poesia. A timidez da garota, o andar trôpego do bêbado, o barulho do mar dentro dos braços da madrugada e a formiga em marcha ao formigueiro com um pedacinho de folha nas costas quatro vezes mais pesada do que ela mesma. Parece trivial demais, todos os detalhes são ínfimos pra quem não deu brecha pra poesia uma vez sequer na vida. Mas ela é tudo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Epifania

Queria aprender tanta coisa. Falar tantas línguas mais; francês, italiano, alemão, mandarim. Queria desenvolver o desdobramento do corpo astral e fazer yoga. Memorizar os detalhes da história geral da humanidade, discutir política com esmero, dirigir logo um carro. Queria conhecer de perto várias formas de cultura e aproveitá-las ao máximo. E morar alguns anos em cantos diversos, Europa, Ásia, Oceania... Tocar um instrumento. Dois, três. Queria poder bancar pros meus filhos desde pequenos o dobro de tudo que eu quero dominar, poder proporcioná-los toda a paz que eu por acaso não possuir em mim. Não quero ser perfeita, só espero ser grande. Sabe aquele medo de acabar que nem o Bukowski? (Buk, nada pessoal, eu te amo de verdade); Será que a minha natureza é essa?
Hoje eu pensei no futuro (ao invés de, como sempre, retornar ao passado) e senti um medo estranho. Medo de não conseguir realizar, de ser pela metade, da inevitável corrida contra o tempo, que pareceu muito pouco pra mim. Tive medo de dinheiro e da falta dele, medo da era da (des)informação e medo da Terra explodir antes que eu espere.
Sonhar não faz tão mal assim, eu acho. É o primeiro passo largo pra não viver uma vida de merda. 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Voar

Um brinde ao novo começo.

supostamente onde se vê um "fim"
imenda-se o novo começo
não mais que supostamente, das velhas asas caem penas falhas
e se dissolvem sobre a terra
que se faz elemento forte do tempo...
se sou um pássaro negro
cortando o azul do céu num infinito movimento plácido
se nasci me jogando da árvore, ou sendo jogada do ninho,
é mais que suposto
que me encante o movimento, ou eu estaria morta
pequena jazida de aspecto gélido
se estou aqui para voar
que me leve o vento à mais serena posição...
anoiteceu
a lua entrando pela fresta:
onde vê-se o fim da noite vã
imenda-se a luz d'alvorada ao leste




segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Meu bem

Meu bem
Domingo é dia de voltar às palavras
E se voltamos às palavras, também te escrevo um poema
Pra te falar do meu amor...

Meu bem
Pra te falar que me embrenhei, me entreguei quando teu hálito traguei, e me tornei
Uma parte apenas da imensidão
Que das tuas lindas mãos inventei.

Meu bem
Tuas mãos são o começo
De uma louca viagem:
Desde a hora de comprar a passagem
(E se de repente, me escreves uma mensagem)
Passando pelas carícias mansas na pele das minhas costas
Até provocarem o orgasmo trêmulo
Incontido nos teus braços...

A tua boca, meu bem,
Teus lábios,
São o mar rosado-pálido onde eu me afogo
Só de olhar...
Mal sabes
Das reações fatais no meu peito quando vens com a boca
Teimando me beijar
Na rua, na sacada, na sala de estar
Naquele meu momento mais frágil
Que não gosto de lembrar...

E fora as mãos e a boca, e ozoín fechado
Tem teu gênio intocável
Tua piada pedante
Teu sorriso imensurável
A poesia andante...

Pretinho
Eu comeria o tal do pastel de feira todas as noites, acredita,
E nos primeiros dias
Talvez até aguentasse o seu despertador gritante 
Tudo isso e mais um tanto eu faria
Pra que pudesse te abraçar cotidianamente
Quando descesses a rua vindo me buscar em qualquer lugar
Os vinhos italianos e lençóis de seda me são menos importantes
Mas você bem que podia me trazer uma única florzinha 
Bem que podia me mimar com uma paçoca, né?
Daquelas das banquinhas...
Podia, né, que aqui cê tem colo gostoso pra deitar
Tem cafuné e tem café
Nas madrugadas, tem uma chaminé
De tesão e outras individualidades,
Coisas só pra você

Amor
Hoje eu não quero dormir sozinha...
Essa aflição é o fim da linha
Será que cê também sente saudade assim de mim?
Por aqui, a poeira ainda flutua
No teu colo, toda nua
Declarei o meu lugar...
Será só por um instante? Será que é pela eternidade?
Será deus soberano de escrever as linhas tortas?
Na verdade, pouco importa...
Que importa é te amar

E nós voltamos às palavras, sim, meu bem...
Nossas próprias palavras - que foram sempre dois pares de asas - agora são o limite
E isso é uma contradição.
Vou me afundar nos livros, no jornalismo,
Na cachaça e no sono
Pra que abril logo chegue de braços abertos
Desse tamanhão...