sábado, 27 de junho de 2015

É outono na minha alma

Há algo que vem se deteriorando no interior mais íntimo daquela alma do samba de raíz, das noites quentes, da alegria. Algum lugar muito determinante dessa alma tá coberto de mofo, frio como mármore. A luz do Sol entra pela fresta da janela mas nada ilumina. As memórias mais intensas costuram as interligações de um coração retalhado, suspenso. Por algum motivo desconhecido desses que fazem parte dos mistérios da vida, as crenças mais fortes já não são as mesmas, os prazeres tornaram-se mero preencher de um vazio, os velhos hábitos intensificam.

É outono na minha alma. Tempo de renovar as folhas e entender um novo processo, um processo nunca visto de tão perto antes. Um processo talvez natural, mas que no momento assusta feito ser uma criança tateando um terreno estranho no escuro, sozinha. Sozinha. Mais só do que nunca. Solidão essa que acomoda, que engrandece, que caleja. Tão verdadeira e tão intensa que me sinto incomodada quando alguém senta ao meu lado cheio de conversas descontraídas. Não entendo. Sorrio, mas me sinto incomodada. Como se houvesse um precipício gelado entre eu e essa pessoa: se eu der mais um passo, caio. E ela dá de ombros, ignorando. A melancolia que antes corria no sangue, não é mais melancolia. É morbidez. 

Olho as paredes do quarto, todas preenchidas de fotografias, desenhos, cores, e toda essa informação efusiva me corrói os olhos, me invade a pele. Desejo estar no branco. No preto. Num lugar sóbrio e chato no qual eu nunca me imaginei. Uma vontade de arrancar tudo da parede e guardar com carinho numa daquelas caixas que somem para sempre entulhadas no sótão. Tudo vai pro sótão. Ou pro porão, ou pro lixo. Seja lá o que for. 

"Tudo que em mim sente está pensando." - (Fernando Pessoa)



terça-feira, 9 de junho de 2015

Combinações implacáveis: uma relação entre Cartolinha na tela e a cultura brasileira

Tal como a magia do café com bolinho verbalizada pela Bea Galindo na semana passada, venho observando as combinações mais primorosas que encontro pelo meu caminho. Não é difícil. Feijão bem temperado com banana, vinho com sexo (ou, melhor, sexo com vinho), vinil de Jazz em tarde chuvosa, amor e pôr do Sol, massa de tomate com manjericão. O casamento perfeito de coisas ou situações que retratam, talvez numa metáfora, como a união certa de dois incompletos torna-se muito melhor que o brilho de uma genialidade solitária. Estaria próxima disso a teoria sobre alegria compartilhada?

Dessas combinações (entre muitas outras) que encontrei, creio que nenhuma delas foi  formidável capaz de me deixar arrepiada como parar pra ouvir uma música do Cartola na tela de um filme bem bolado. A morte do Cabelera em “Cidade de Deus” faz muito mais sentido - um sentido muito mais sofrido - acompanhada do violão passível de “Preciso me encontrar”. O sentido irrefutável de uma vida que termina cedo demais em nome das condições sociais que lhe foram impostas, o direcionando, tão obviamente, ao tiro perfurador das suas costelas no momento de fuga para o caminho da esperança. O sentido mórbido do conformismo, por parte da moça; o conformismo que lhe restou. E dos socos no estômago que a vida dá na gente, de vez em quando.


Penso, também, brevemente a partir de tudo isso, na cultura depreciada do nosso país. Depreciada pelos de fora, que acreditam nela como uma composição admirada de outras culturas, não tendo base própria, base sólida. Depreciada, também, e principalmente, pela grande massa dos brasileiros que não se dão a oportunidade sequer de conhecê-la, e dessa forma, a impedem de se expandir mundialmente à maneira devida. Essa cultura tão bonita, tão autêntica e enraizada, que às vezes eu sinto que ficou engavetada feito reportagem de quinta – e engavetou, junto a ela, junto ao bolor, todos os seus amantes.

Ano que vem, para a matéria de Cinema Documental, eu vou ter de produzir um curta-metragem, o primeiro da minha vida. Venho pensando desde já nas diversas formas possíveis de usar um Cartolinha esperto para provocar em alguém, quem sabe, um terço do êxtase parecido com o que eu senti na fração incrível de 1m32s da cena de “Cidade de Deus”. E ah, é claro, está entre as minhas metas pós-18 anos, a tal idade independente, aprender a cozinhar um feijãozinho daqueles, bem temperado.

Pois temos que viver e espalhar a nossa cultura. Temos que entender e abraçar o contexto do Cabelera. E inventar outras várias combinações implacáveis para a felicidade dos envolvidos.