sábado, 27 de junho de 2015

É outono na minha alma

Há algo que vem se deteriorando no interior mais íntimo daquela alma do samba de raíz, das noites quentes, da alegria. Algum lugar muito determinante dessa alma tá coberto de mofo, frio como mármore. A luz do Sol entra pela fresta da janela mas nada ilumina. As memórias mais intensas costuram as interligações de um coração retalhado, suspenso. Por algum motivo desconhecido desses que fazem parte dos mistérios da vida, as crenças mais fortes já não são as mesmas, os prazeres tornaram-se mero preencher de um vazio, os velhos hábitos intensificam.

É outono na minha alma. Tempo de renovar as folhas e entender um novo processo, um processo nunca visto de tão perto antes. Um processo talvez natural, mas que no momento assusta feito ser uma criança tateando um terreno estranho no escuro, sozinha. Sozinha. Mais só do que nunca. Solidão essa que acomoda, que engrandece, que caleja. Tão verdadeira e tão intensa que me sinto incomodada quando alguém senta ao meu lado cheio de conversas descontraídas. Não entendo. Sorrio, mas me sinto incomodada. Como se houvesse um precipício gelado entre eu e essa pessoa: se eu der mais um passo, caio. E ela dá de ombros, ignorando. A melancolia que antes corria no sangue, não é mais melancolia. É morbidez. 

Olho as paredes do quarto, todas preenchidas de fotografias, desenhos, cores, e toda essa informação efusiva me corrói os olhos, me invade a pele. Desejo estar no branco. No preto. Num lugar sóbrio e chato no qual eu nunca me imaginei. Uma vontade de arrancar tudo da parede e guardar com carinho numa daquelas caixas que somem para sempre entulhadas no sótão. Tudo vai pro sótão. Ou pro porão, ou pro lixo. Seja lá o que for. 

"Tudo que em mim sente está pensando." - (Fernando Pessoa)



Um comentário:

  1. Talvez não tenhamos a capacidade de reconhecer a importância do outono, intimidados pelo frio. Mas é depois disso que o cenário floresce e colore os dias e todo esse sentido de existir. Espero que a sua primavera apareça na janela o mais logo possível.

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