Dessas combinações (entre muitas outras) que encontrei, creio que nenhuma delas foi formidável capaz de me deixar arrepiada como parar pra ouvir uma música do Cartola na tela de um filme bem bolado. A morte do Cabelera em “Cidade de Deus” faz muito mais sentido - um sentido muito mais sofrido - acompanhada do violão passível de “Preciso me encontrar”. O sentido irrefutável de uma vida que termina cedo demais em nome das condições sociais que lhe foram impostas, o direcionando, tão obviamente, ao tiro perfurador das suas costelas no momento de fuga para o caminho da esperança. O sentido mórbido do conformismo, por parte da moça; o conformismo que lhe restou. E dos socos no estômago que a vida dá na gente, de vez em quando.
Penso, também, brevemente a partir de tudo isso, na cultura depreciada do nosso país. Depreciada pelos de fora, que acreditam nela como uma composição admirada de outras culturas, não tendo base própria, base sólida. Depreciada, também, e principalmente, pela grande massa dos brasileiros que não se dão a oportunidade sequer de conhecê-la, e dessa forma, a impedem de se expandir mundialmente à maneira devida. Essa cultura tão bonita, tão autêntica e enraizada, que às vezes eu sinto que ficou engavetada feito reportagem de quinta – e engavetou, junto a ela, junto ao bolor, todos os seus amantes.
Ano que vem, para a matéria de Cinema Documental, eu vou ter de produzir um curta-metragem, o primeiro da minha vida. Venho pensando desde já nas diversas formas possíveis de usar um Cartolinha esperto para provocar em alguém, quem sabe, um terço do êxtase parecido com o que eu senti na fração incrível de 1m32s da cena de “Cidade de Deus”. E ah, é claro, está entre as minhas metas pós-18 anos, a tal idade independente, aprender a cozinhar um feijãozinho daqueles, bem temperado.
Pois temos que viver e espalhar a nossa cultura. Temos que entender e abraçar o contexto do Cabelera. E inventar outras várias combinações implacáveis para a felicidade dos envolvidos.
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