terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Elizabeth Bishop

A falta de inspiração e a sonolência desses dias não me permitiram criar, experimentar, ponderar as coisas com cautela. A turbulência desse momento me torna tão vulnerável e ao mesmo tempo me transforma lentamente num ser mais forte. É emaranhado, confuso. E ao mesmo tempo muito claro. Quase um paradoxo, quase como eu. Sentei aqui e, em vez de escrever, preferi ler com muita calma esse poema da Elizabeth Bishop... Maravilhosa! Essas palavras são tão sábias, têm um poder tão grande de concretizar meu sentimento. Quando isso acontece pra mim é como se os devaneios e os fatos adquirissem a capacidade de se encaixar numa fúria sinestésica, se fundir em certezas e iluminar o meu caminho. Não existe estado íntegro de perdição quando se é próximo da arte. Dentre tantas ruínas, essa é a minha maior estrutura, a minha única convicção. Quanto ao César Frank (a trilha sonora perfeita), receio que me falte o ar.

A arte de perder

"A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério: lugares, nomes, a escala subsequente da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
E nem quero lembrar a perda de três casais excelentes.
Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu, dois rios e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por mais que pareça (escreve!) muito sério."





sábado, 13 de fevereiro de 2016

Linhas tortas

Das linhas tortas do acaso vi nascer tantas preciosidades
Coisas que jamais imaginaríamos, que demos de ombros
Sentimentos que brotam como plantinhas mágicas entre a dureza do concreto,
delicados mas donos de uma força incomensurável.
Das linhas tortas do acaso vi nascer você em mim
E vou gostando de te conhecer devagarzinho; descobrir as diversas maneiras meio tímidas que você encontrou de provar o teu amor,
descobrir teus sonhos, teu corpo, tuas manias.
Vou gostando de estar à margem do meu carinho te encontrando em músicas, fotografias,
num bordar torpe da tua imagem no meu coração.
E quando meus dedos se perdem pelos teus cabelos negros
é como se eu me visse perdida nesses acasos imprevisíveis.
Adoro me perder, adoro me achar, com essa tranquilidade de quem fuma um cigarro na sacada
Com essa serenidade da tua fala pausada, da tua respiração guiando meu sono,
soprando ternura.
Das linhas descompassadas do amor te entendi como o continente do meu mar,
não o verso que faltava, mas aquele que se lançou lindamente. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Amuleto

Continuo daquele jeito. Meio desajustada, meio desequilibrada, 
meio que sempre olhando as horas na espera ansiosa por algo que não existe,
na consciência temerosa de ser incapaz de segurar o tempo, parar o mundo.
Ainda ponho o gelo antes da coca, atropelo pensamentos movida por um ímpeto desvairado e me vejo transbordar quando me dou, ou não, conta das coisas que fiz, que deixei de fazer, dos sonhos que enterrei, do que joguei fora.
Minuciosa, ainda não gosto muito de conversa durante os filmes, e rebobino inúmeras vezes quando a cena me interessa. Vejo, revejo, trevejo os meus favoritos porque os entendo um pouquinho mais a cada vez que constato a fineza da obra, a profundidade do autor. No entanto, minha lista continua crescendo, meio estagnada, meio esquecida.
Continuo não gostando tanto do que escrevo, mas me torno cada vez mais certa de que tenho as palavras como uma espécie de lastro, de sustentação essencial. Reconheço meu lugar entre elas, que me invadem e me tocam até o caroço, até o magma de mim.
Me apaixono por cores, por desenhos, por expressões, por pessoas, pela delicadeza de momentos feitos de uma imensidão despercebida, quase pisada. E tenho medo de perder isso.
Sem dúvida ainda bebo com a força de uns três homens, ainda falo palavrão pra caralho, fico puta, viro leoa quando me sinto injustiçada ou quando encontro ferimentos em quem amo.
Não deixei de acreditar num deus onipresente, nas energias que representam sua verdade variável, sua maravilha enigmática que me acompanha pelas empreitadas, pelas esquinas, pelo tempo corrente, enfim.
Guardei manias e ingenuidades de menina, às vezes tão descomplicada e sutil que eu mesma receio me machucar, e assim questiono meus limites, minha auto-destruição. 
Gosto de imaginar, até hoje, uma vida futura com a paz das tardes alaranjadas, dos bolos alaranjados no meu apartamento pequenininho onde eu possa cobrir as paredes de fotografias e dali sair a pé, adentrando as ruas da cidade nunca antes exploradas com olhos curiosos. 
E que nessa vida futura eu possa viver momentos inteiramente; com a integridade do meu ser, sem ter que me partir em mil pedacinhos para estar em diversos lugares ao mesmo tempo.
É só isso. Acho que não existem maiores idealizações sobre a pessoa que eu sou, e que renasce e cresce a cada vez que o destino desagua em outros caminhos, em novas idéias.
Existe apenas o que eu carrego dentro do meu peito, a minha alma, o meu amuleto, pequeno e absoluto.



sábado, 6 de fevereiro de 2016

Carnaval

Você tinha mania de sair sozinho no carnaval. Observar o mundo por detrás das lentes arranhadas com extrema frieza. Quase fazendo análises antropológicas do ser-humano entregue às mãos das noites loucas.
Parece que agora está sempre acompanhado, cultuando boas energias, emanando bons fluidos. Buscando efusividade nas palavras, nas expressões.
Você costumava se consumir em angústia, entornar porre atrás de porre sentado na sarjeta e escrever coisas maravilhosas jamais reconhecendo o quão eram maravilhosas. Dizem por aí que escritor bom é escritor autocrítico, às vezes até sem amor próprio.
Hoje você tem publicado tão pouco. 
Você fazia piadas infames sobre tudo e todos, mas guardava dentro do coração uma ternura infinita para com a humanidade, a natureza, que podia até te fazer chorar, e que nunca deixava ser tocada por ninguém. Exceto por mim.
Agora eu já não toco mais. Já não sei de mais nada. Bem, isso ao menos deve ter permanecido.
Você adorava falar da poesia oculta nas coisas enquanto tragava o seu cigarro ruim. "Cada quadro pode ser uma poesia".
Hoje se mostra tão empurrado pelos impulsos de agarrar a vida que não sei se tem sobrado tempo ou espaço para observar os velhos, as formiguinhas trabalhando, o sotaque debochado da periferia. 
Espero que sim. 
Acho que eu insisti tanto para que você se desvencilhasse da morbidez e se atracasse na alegria da juventude que finalmente você resolveu escutar, talvez se espelhar em mim... E deu certo. Ou não.
Mas hoje fui eu quem saí sozinha no carnaval.
Olhei (e escutei) o mar, as pessoas dançando, senti cheiro de maconha, tomei as minhas usuais doses de whisky.
Me dei conta de algumas coisas. Coisas que trocamos, que nos ensinamos. E que depois de toda a raiva, já passou da hora de parar de te olhar de longe. De romper com o pacto. 
Ainda bem. Isso estava me matando. 
Você me mostrou, uma porção de vezes, a dualidade da solidão.
Ora tão triste. E tão lúcida.
Ora essencialmente bonita. Necessária.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Presença de um anjo

Maria
Veio me ver
Trouxe do céu o véu da serenidade
O sopro da paciência, a firmeza da sabedoria

Mulher forte, mãe de todos
Meio fúria, meio doçura
Origem dos polos de uma ligação transcendental

Maria, um anjo
Senhorinha
Imensa no amor terreno
Eterna no celestial