A falta de inspiração e a sonolência desses dias não me permitiram criar, experimentar, ponderar as coisas com cautela. A turbulência desse momento me torna tão vulnerável e ao mesmo tempo me transforma lentamente num ser mais forte. É emaranhado, confuso. E ao mesmo tempo muito claro. Quase um paradoxo, quase como eu. Sentei aqui e, em vez de escrever, preferi ler com muita calma esse poema da Elizabeth Bishop... Maravilhosa! Essas palavras são tão sábias, têm um poder tão grande de concretizar meu sentimento. Quando isso acontece pra mim é como se os devaneios e os fatos adquirissem a capacidade de se encaixar numa fúria sinestésica, se fundir em certezas e iluminar o meu caminho. Não existe estado íntegro de perdição quando se é próximo da arte. Dentre tantas ruínas, essa é a minha maior estrutura, a minha única convicção. Quanto ao César Frank (a trilha sonora perfeita), receio que me falte o ar.
A arte de perder
"A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério: lugares, nomes, a escala subsequente da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
E nem quero lembrar a perda de três casais excelentes.
Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu, dois rios e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por mais que pareça (escreve!) muito sério."
A arte de perder
"A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério: lugares, nomes, a escala subsequente da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
E nem quero lembrar a perda de três casais excelentes.
Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu, dois rios e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por mais que pareça (escreve!) muito sério."
