Continuo daquele jeito. Meio desajustada, meio desequilibrada,
meio que sempre olhando as horas na espera ansiosa por algo que não existe, na consciência temerosa de ser incapaz de segurar o tempo, parar o mundo.
Ainda ponho o gelo antes da coca, atropelo pensamentos movida por um ímpeto desvairado e me vejo transbordar quando me dou, ou não, conta das coisas que fiz, que deixei de fazer, dos sonhos que enterrei, do que joguei fora.
Minuciosa, ainda não gosto muito de conversa durante os filmes, e rebobino inúmeras vezes quando a cena me interessa. Vejo, revejo, trevejo os meus favoritos porque os entendo um pouquinho mais a cada vez que constato a fineza da obra, a profundidade do autor. No entanto, minha lista continua crescendo, meio estagnada, meio esquecida.
Continuo não gostando tanto do que escrevo, mas me torno cada vez mais certa de que tenho as palavras como uma espécie de lastro, de sustentação essencial. Reconheço meu lugar entre elas, que me invadem e me tocam até o caroço, até o magma de mim.
Me apaixono por cores, por desenhos, por expressões, por pessoas, pela delicadeza de momentos feitos de uma imensidão despercebida, quase pisada. E tenho medo de perder isso.
Sem dúvida ainda bebo com a força de uns três homens, ainda falo palavrão pra caralho, fico puta, viro leoa quando me sinto injustiçada ou quando encontro ferimentos em quem amo.
Não deixei de acreditar num deus onipresente, nas energias que representam sua verdade variável, sua maravilha enigmática que me acompanha pelas empreitadas, pelas esquinas, pelo tempo corrente, enfim.
Guardei manias e ingenuidades de menina, às vezes tão descomplicada e sutil que eu mesma receio me machucar, e assim questiono meus limites, minha auto-destruição.
Gosto de imaginar, até hoje, uma vida futura com a paz das tardes alaranjadas, dos bolos alaranjados no meu apartamento pequenininho onde eu possa cobrir as paredes de fotografias e dali sair a pé, adentrando as ruas da cidade nunca antes exploradas com olhos curiosos.
E que nessa vida futura eu possa viver momentos inteiramente; com a integridade do meu ser, sem ter que me partir em mil pedacinhos para estar em diversos lugares ao mesmo tempo.
É só isso. Acho que não existem maiores idealizações sobre a pessoa que eu sou, e que renasce e cresce a cada vez que o destino desagua em outros caminhos, em novas idéias.
Existe apenas o que eu carrego dentro do meu peito, a minha alma, o meu amuleto, pequeno e absoluto.

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