terça-feira, 20 de outubro de 2015

Menina da lua e das estrelas

17h49
Andava pela cândido de abreu meio desacreditada, olhando a prediarada do centro como um cenário habitual, daqueles que cansam a vista no decorrer dos anos. Paisagem cinzenta da infância, vento frio na cara, uma pontinha de incerteza das coisas na idéia.
Naquele momento eu me sentia assim, meio calejada da vida, meio arrebentada dos tapas na cara, e estranhamente indiferente a isso tudo. Como se fosse murchando, murchando, prestes a chegar na temida idade em que as pequenas magias cotidianas se tornam meros detalhes imperceptíveis, descartáveis, numa espécie de amargura que abarrota lentamente o amor que a gente tem por tudo e por si mesmo. No ponto nebuloso onde as vinte e quatro horas apressadas e repetitivas do dia-a-dia carecem tanto de energia e novidade que a correria, num passo e noutro, transforma-se em inércia.
Inércia de espírito.
Talvez as velhas solitárias saibam do que eu falo. Ou talvez qualquer um, com alguma porção mínima de tristeza na composição moral, que venha a ler essa nota corrida.

(ilustração de Nicholas Steinmetz)




















17h51  

Ela aparece, com a luazinha desenhada na testa, sem sair do lugar. Ou, melhor, eu apareço pra ela.
Nossos olhos se cruzam de um jeito magnético não sei por quanto tempo. Tudo ficou suspenso, inexistente.
“Moça. Você é tão bonita”, ela disse pra mim. E eu respondi sorrindo com uma naturalidade incompreensível e incabível a minha pessoa que ela também era linda.
Não foi erótico ou passional. Não alimentou o ego. Não tinha nenhuma segunda intenção. Foi um instante puro, um negócio diferente que mudou tudo em fração de segundos, no escape ligeiro da aura angelical.
Pode ser que eu esteja ficando meio louca, meio doente da evasão gélida da sociedade e que foi surpreendente pra mim alguém me parar desse jeito no meio da rua, sem querer vender qualquer porcaria ou dar uma cantada grotesca. Sem ser dessas coisas provindas do oportunismo urbano, sistemático. Pode ser que a gente tenha sido grandes amigas em outra vida. Ou, então, que ela era mesmo um anjo.
Sei lá.
Só sei que a luz dela refletiu em mim, e a minha luz (se é que ainda existe) refletiu nela.
Eu me lembrei do fato inexorável de que a felicidade é momentânea, e não uma reta duradoura na qual custamos a acreditar e depositar todas as nossas expectativas. Me lembrei dos pequenos milagres da Clarice Lispector e do medo que alimentamos de encarar o sofrimento, de encarar o que é derradeiro.
Lembrei, também, que somos seres findáveis com tempo contado e que nos cabe determinar perspectivas com relação a ele.
A todas as coisas.
Depois dali, o mundo ficou azul diante dos meus olhos. Azul igualzinho aos seus cabelos.

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