domingo, 10 de janeiro de 2016

"O que forja uma alma é a sua dor"

Já devia estar no terceiro cigarro a espera de sua chegada. A densidade do céu nos pulmões e dos pulmões no céu pintando uma tela absorta em chumbo, cinza, inércia. Odiava esperar. Sentia-se incomodado com os olhares devoradores da sua solidão angustiada. Não sabia direito o que fazer com as mãos, sem graça.

Daí ela chegou apressada, sentou tirando o lenço e pendurando a sacola na cadeira, tudo ao mesmo tempo. Afobada, como sempre. O escape de uma mecha de cabelo por cima dos seus olhos o prendeu distraído enquanto ela justificava o atraso sem se desculpar. Seus dedos roídos procurando o cardápio numa espécie de preencher com movimentos espasmados o breve constrangimento da chegada. Ela sussurrou.

- Então...
- Você também gosta de tomar café, assim, nesses dias frios?
- Gosto.
- Tem um charme, né?
- O frio? Ou o café?
- O café, o frio.
- Ah, é.
- Mas uma coisa não depende da outra.
- Hein?
- O café. Não depende do frio. É bom tomar no calor também. Quer dizer, supre o vício. Em cafeína.
- Você tem esse vício?
- Em cafeína?
- Em qualquer coisa.

(Silêncio) 

Estar ali com ela era meio como estar cara a cara com o urbanismo, com a luxúria, a confusão, a fumaça, a evasão, as idéias insensatas e criações bizarras que vinham dos filmes e dos livros escritos por gente meio maluca tentando fugir da banalidade do conservadorismo e etc. Ela, com suas meias-calças rasgadas e anéis enfiados em todos os dedos era quase uma personificação da excessividade de informações que se embaralham diariamente, mas fazia tudo isso cair por terra quando sorria tímida e desviava o olhar voltando para dentro de si, da sua prisão erguida por muralhas fortes e impenetráveis, que por uma fresta revelavam alguma fragilidade intacta da infância, do calor dos poucos sonhos que sobravam atrás dos anos corridos.

- Li uma vez que temos muitos vícios. Nós, os humanos. E vários preconceitos também.
- Mas nem tudo é consciente, né?
- É. Você leu isso também?
- Não. Só supus.
- Você supõe muitas coisas? Sobre isso tudo?
- Isso o que?
- Sei lá. Sobre a vida, sobre as pessoas. Nós mesmos. As coisas.
- Eu não sei. Acho que suponho coisas normais, que todo mundo supõe. Mas não me aprofundo muito nelas. Porque se não eu fico meio doida, sabe?
- Doida?
- É, doida. Pensando demais. Fazendo de menos.
- Mas isso não é bom pro seu trabalho? Pensar? Não alimenta o que você escreve?
- Às vezes eu escrevo sobre o vazio.
- Que vazio?
- Ah, o vazio que eu sinto.
- Como é?
- Oi?
- O vazio, como é?
- Um oco, assim, no peito. Uma preguiça da vida, das pessoas. Inclusive de pensar, de supor.
- Sei. Mas você escreve várias vezes sobre a mesma coisa?
- Cada vez de um jeito novo. Existem vazios diferentes, entende? E a forma como a gente sente também muda.
- Você está sentindo isso agora?
- Não sei. Falar sobre ele sempre o afugenta. Ou talvez seja um descanso. Às vezes ele sai pra passear porque quer. Talvez queira conversar com outros vazios. Tomar um café.

(Silêncio)

Sempre admirou quem conseguia brincar com a existência assim. Criar metáforas sob pressão, inventar situações reversas. Ironias singelas ou pontiagudas. Era um apreço transparente pelas coisas ao contrário, pela monotonia sendo bagunçada. Essa capacidade estava estampada, inclusive, nos cabelos dela. Loucos. Sorriu delicadamente ao imaginar o seu leve descaso com a própria aparência porque dentro das muralhas impenetráveis existia um turbilhão. Igualzinho a ele.

- Sabe, a gente devia viajar. Ou inventar uma obra de arte. Ou sei lá, uma brincadeira engraçada.
- Por que?
- Pra esquecer um pouco. Dos nossos pensamentos. Ou lembrar deles de uma forma mais bonita.
- Tinha uma brincadeira - Ela pegou um guardanapo e tirou uma caneta do bolso, alisando-o, afobada, mais uma vez - ...que a minha mãe me ensinou quando eu era criança. É assim: eu escrevo uma frase, dobro o papel, e você escreve outra embaixo, sem ler o que eu escrevi. E dobra de novo. E eu escrevo de novo sem ler o que você escreveu. E assim por diante. Até terminar a folha. Depois a gente vê o que saiu.

Ela escreveu alguma coisa, parecia ansiosa, nostálgica, enquanto a mecha de cabelo voltava a cair sobre os seus olhos, e logo dobrou o papel, passando-o pra ele junto à caneta com uma expressão gozada de desafio. Era divertido estar ali. Então ele escreveu a primeira coisa que pensou. E devolveu. E recebeu. E devolveu.

- Preciso ir embora. Fica com os escritos. Vai que tenhamos composto a nível de Camões - Disse rindo, sarcástica e sem jeito, levantando apressada, juntando as suas coisas. - Me liga qualquer coisa.
- Eu ligo. Ou você liga. Quando quiser falar de algum pensamento ou me indicar um disco. Se cuida.
- Eu tento, às vezes.
- Faz bem.

Naquele momento ela se virou de costas e retomou o seu caminho apressado, atrasado, enquanto ele ficou ali, observando. Pensando que chato seria se todas as pessoas fossem normais demais, e que chato seria, por outro lado, se todas fossem assim meio loucas, meio lunáticas. Elas perderiam essa aura única, perderiam a graça porque sempre teria alguém mais louco ou mais lunático muito perto. Já fazia um tempo que ele não sentia as coisas do mundo estáveis, como se estivessem certas, nos seus lugares. Abriu lentamente o guardanapo.

"Eu queria um óculos escuro agora. É foda sustentar o olhar quando a gente é inseguro."
"Tem um cara que não para de me olhar do outro lado da rua. Será que tem algo de errado comigo? Uma sujeira no suéter? Um fio despenteado? Ou será que ele me achou atraente?"
"Adoro frango no vinho tinto. Acho que vou tentar fazer um essa noite."
"Uma vez me contaram uma história sobre ameixas. Uma daquelas com moral no fim. Daí vem a expressão 'ameixas da vida', eu acho. O que você acha?"
"Era uma vez um frango xadrez (ou seria um gato chinês?), quer que eu conte outra vez?"

Achou muito engraçadinho e se deu conta de que durante aquele tempo não havia fumado nem um cigarro. Nem pedido nem um café.

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