Você tinha mania de sair sozinho no carnaval. Observar o mundo por detrás das lentes arranhadas com extrema frieza. Quase fazendo análises antropológicas do ser-humano entregue às mãos das noites loucas.
Parece que agora está sempre acompanhado, cultuando boas energias, emanando bons fluidos. Buscando efusividade nas palavras, nas expressões.
Você costumava se consumir em angústia, entornar porre atrás de porre sentado na sarjeta e escrever coisas maravilhosas jamais reconhecendo o quão eram maravilhosas. Dizem por aí que escritor bom é escritor autocrítico, às vezes até sem amor próprio.
Hoje você tem publicado tão pouco.
Você fazia piadas infames sobre tudo e todos, mas guardava dentro do coração uma ternura infinita para com a humanidade, a natureza, que podia até te fazer chorar, e que nunca deixava ser tocada por ninguém. Exceto por mim.
Agora eu já não toco mais. Já não sei de mais nada. Bem, isso ao menos deve ter permanecido.
Você adorava falar da poesia oculta nas coisas enquanto tragava o seu cigarro ruim. "Cada quadro pode ser uma poesia".
Hoje se mostra tão empurrado pelos impulsos de agarrar a vida que não sei se tem sobrado tempo ou espaço para observar os velhos, as formiguinhas trabalhando, o sotaque debochado da periferia.
Espero que sim.
Acho que eu insisti tanto para que você se desvencilhasse da morbidez e se atracasse na alegria da juventude que finalmente você resolveu escutar, talvez se espelhar em mim... E deu certo. Ou não.
Mas hoje fui eu quem saí sozinha no carnaval.
Olhei (e escutei) o mar, as pessoas dançando, senti cheiro de maconha, tomei as minhas usuais doses de whisky.
Me dei conta de algumas coisas. Coisas que trocamos, que nos ensinamos. E que depois de toda a raiva, já passou da hora de parar de te olhar de longe. De romper com o pacto.
Ainda bem. Isso estava me matando.
Você me mostrou, uma porção de vezes, a dualidade da solidão.
Ora tão triste. E tão lúcida.
Ora essencialmente bonita. Necessária.
https://www.youtube.com/watch?v=_Vb9hUV26vU
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