Foi feito largo, inchado,
desenhado imenso demais pra um corpo aparentemente frágil
Foi batizado por furacões, vulcões ativos e o Sol ardente
Enraizado; o sangue que pulsa por entre suas esquinas é o sangue de um povo antigo, voraz, abençoado.
Meu coração rege o meu íntimo,
meus conflitos mais secretos,
as minhas teses mais sucintas.
Meu coração sofre envolto em correntes, arrebenta e voa, em busca de uma intermitência,
e ama, e grita
e judia
de mim.
Coração passional,
funciona da energia do samba
e do whisky
e do mar. Meu coração é do mar.
Das ondas, das ventanias, das forças sobrenaturais
e dos mais impetuosos dilemas.
Um jovem velho-de-guerra.
Não inventa, não mascara.
Pulsa em descompasso e se faz o retrato do medo diante da mentira.
Pulsa em dissonância com o afinco doce dos sonhos bordados na alma
e desafia, irredutível, os próprios limites.
Meu coração quer ser amado, afagado, aquecido,
seduzido,
por outros peitos desse mundo louco,
e quer dar de volta,
dar em troca,
sutil e desapressada.
Coração bagunçado, sem métrica, sem rima.
Visceral e antropofágico,
inconstante, fantasioso,
perdido em si mesmo, de si mesmo.
Coração atrapalhado, bêbado,
trôpego, desmesurado. Um parto diário.
Delira em aspectos lúdicos e ocultos,
em traços que fugiram, escaparam da consciência.
Meu coração já enfrentou febres e chuvas das quais não imaginou sair vivo.
E de uma forma ou de outra, no fim das contas,
continua bombeando o sangue de todas as feridas,
de todos os céus vermelhos dos fins das tardes vadias.
Meu coração sabe que está só de passagem,
mas não se importa.
Porque precisa partir pra desejar voltar.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Tallulah Bankhead
My dad warned me about men and booze, but he never mentioned a word about women and cocaine.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Borboletas não babam letras, do fazedor de poemas
Bem me lembro de, aos cinco anos de idade, ser puxada pela mãozinha e levada ao estúdio de rádio para concretizar a minha super obra artística musical chamada Vitamina C. Um amigo, o fazedor de poemas, foi quem me ajudou a dar ritmo para a suposta invenção genial que eu havia escrito numa folha de caderno e que se tornaria o hit number one dentro de casa nos próximos anos - "Vitamina C, ótimo pra você, você tem que beber", algo assim. Foi ele, o fazedor de poemas, quem me levou ao estúdio naquela tarde de Sol, e era mágico cantar no microfone e depois escutar a minha voz com a acústica tão perfeita do estúdio nas caixas de som. Até hoje, às vezes, me gozam por aí: "Vitamina C, ótimo pra você, você tem que beber". Anos depois, com uns nove ou dez, foi a vez da composição do sapo que caía na água, que grunhia, que chiava, que badalava a beça. Foi numa exposição de fotografia que a minha mãe fez, no Beto Batata; gente bebendo, rindo e falando alto, e eu, com aquele tédio de criança no bar, desenhando minhas bonequinhas olhudas no guardanapo, não via a hora de voltar pra casa. Eis que chega ele, o fazedor de poeminhas - ilustre Aluíso de Paula, e senta ao meu lado, mostrando como uma boa invenção em guardanapos de bar pode ser produtiva e divertida. Deve ter sido mais ou menos a partir daí que eu comecei a curtir o clima de boteco. Inventamos juntos a música do sapo, mas nunca gravamos essa, e eu infelizmente a esqueci.
Hoje eu estou escrevendo para divulgar e falar do seu livro, "Borboletas não babam letras", mas não podia deixar de mencionar a sua querida participação no meu amor pela poesia, o seu incentivo a me fazer escrever, desenhar, criar, em geral. Acho bonito esse espaço que o fazedor de poemas ajuda as crianças a abrirem dentro da arte. Deve ser porque, como eu, ele acredita que das pequenas cabecinhas, podem sair grandes idéias espontâneas que dos cabeções jamais sairiam. Nesse seu livro, o "Borboletas não babam letras", tem a ilustração de um menino de dez anos, o João Tuão, juntamente com ilustrações de insignes nomes das artes visuais, como Luiz Rettamozo e Ademir Paixão. São todos célebres, afinal. Tanto Paixão e Rettamozo, com tantos anos de trabalho, quanto João, aos dez de vida. Aposto que ele ficou feliz de publicar tão cedo.
O livro é uma obra compartilhada. São dezenove ilustradores, e há também as "páginas em branco", que são o espaço do leitor de interagir com o livro. Nessas páginas você é livre para desenhar, escrever, colar, enfim, deixar seu pensamento. Por isso, vem com um lápis, e é em formato de sketchbook. Achei peculiar.
"Não gosto de fazer nada sozinho", disse Aluísio no lançamento de ontem (23/09), que foi na Livrarias Curitiba do shopping Estação. "Não sou poeta, sou fazedor de poemas". É que ser poeta é um ofício, segundo ele. Parte da galera do bate-papo discorda. E por aí se desenrolam as discussões (no bom sentido) sobre poesia, as oportunidades de fazer arte em Curitiba, suas relações e arte conceitual, interação com o público.
Os poemas do Borboletas são pequeninos, de poucas palavras, mas não por isso, deixam de ser imensos. A contra-capa explica: "A poesia de Aluísio de Paula é concisa e direta, mas carrega tantos significados, que faz o leitor se perguntar como o poeta consegue escondê-los - e revelá-los - em tão poucas palavras."
disperso
me dispo
verso por verso
- Aluísio de Paula
Então, leiam aí: "Borboletas não babam letras" - Aluísio de Paula. E pra melhorar ainda mais, ele está montando um site onde você pode publicar o seu poema ou ilustração feito nas "páginas em branco" e conversar com outros leitores, encontrando um ilustrador pro seu poema ou poeta pra sua ilustração. Tá tudo explicado aqui nesse site.
Pra quem quiser, amanhã, (dia 25/09), vai ter outro lançamento do Borboletas, no Escritório verde da UTFPR (Av. Silva Jardim, 807).
É isso, Alú. Por último, tenho que contar pra você que também nunca vou escrever "idéia" sem acento.
Hoje eu estou escrevendo para divulgar e falar do seu livro, "Borboletas não babam letras", mas não podia deixar de mencionar a sua querida participação no meu amor pela poesia, o seu incentivo a me fazer escrever, desenhar, criar, em geral. Acho bonito esse espaço que o fazedor de poemas ajuda as crianças a abrirem dentro da arte. Deve ser porque, como eu, ele acredita que das pequenas cabecinhas, podem sair grandes idéias espontâneas que dos cabeções jamais sairiam. Nesse seu livro, o "Borboletas não babam letras", tem a ilustração de um menino de dez anos, o João Tuão, juntamente com ilustrações de insignes nomes das artes visuais, como Luiz Rettamozo e Ademir Paixão. São todos célebres, afinal. Tanto Paixão e Rettamozo, com tantos anos de trabalho, quanto João, aos dez de vida. Aposto que ele ficou feliz de publicar tão cedo.
O livro é uma obra compartilhada. São dezenove ilustradores, e há também as "páginas em branco", que são o espaço do leitor de interagir com o livro. Nessas páginas você é livre para desenhar, escrever, colar, enfim, deixar seu pensamento. Por isso, vem com um lápis, e é em formato de sketchbook. Achei peculiar.
"Não gosto de fazer nada sozinho", disse Aluísio no lançamento de ontem (23/09), que foi na Livrarias Curitiba do shopping Estação. "Não sou poeta, sou fazedor de poemas". É que ser poeta é um ofício, segundo ele. Parte da galera do bate-papo discorda. E por aí se desenrolam as discussões (no bom sentido) sobre poesia, as oportunidades de fazer arte em Curitiba, suas relações e arte conceitual, interação com o público.
Os poemas do Borboletas são pequeninos, de poucas palavras, mas não por isso, deixam de ser imensos. A contra-capa explica: "A poesia de Aluísio de Paula é concisa e direta, mas carrega tantos significados, que faz o leitor se perguntar como o poeta consegue escondê-los - e revelá-los - em tão poucas palavras."
disperso
me dispo
verso por verso
- Aluísio de Paula
Então, leiam aí: "Borboletas não babam letras" - Aluísio de Paula. E pra melhorar ainda mais, ele está montando um site onde você pode publicar o seu poema ou ilustração feito nas "páginas em branco" e conversar com outros leitores, encontrando um ilustrador pro seu poema ou poeta pra sua ilustração. Tá tudo explicado aqui nesse site.
Pra quem quiser, amanhã, (dia 25/09), vai ter outro lançamento do Borboletas, no Escritório verde da UTFPR (Av. Silva Jardim, 807).
É isso, Alú. Por último, tenho que contar pra você que também nunca vou escrever "idéia" sem acento.
| este instante que já é outro agora dura o quanto demora - Aluísio de Paula ilustração: João Tuão |
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Cores e rabiscos
![]() |
| (TERNURA Veio de longe com os sapatinhos na mão E num salto e noutro, sem compasso Dançou sapateado sobre o meu coração gigi) |
![]() |
| (JACK - Eu quero uma doze de Jack. - Já? São dez da manhã. - Então eu quero onze. gigi) |
domingo, 27 de julho de 2014
Poema sobre ele
Eu o amo pra sempre,
eu o amo a cada segundo...
Seu cheiro está colado em minha carne
Seus olhares me circundam a memória feito a guardiania soberana do meu sentimento.
O calor me acossa e me arrepia
O calor me acossa e me arrepia
Eriça o meu desejo
Desejo
de tê-lo embaraçado entre meus lençóis e pernas
e que nos consumássemos durante noites eternas...
Às vezes sua ausência se confunde com ausência minha,
minha ausência de mim,
e desbota a cor da vida como desbotam sozinhas as fotografias mal-cuidadas...
Eu tirei fotografias dele, com os olhos,
enquanto dormia, enquanto pelado fumava um cigarro,
tirei fotografia da pintinha marronzinha da sua nuca
e sobretudo, enquanto me amava...
Recado pra ele:
Se puder, venha logo,
o mais logo possível,
prometo cuidar de você.
Prometo.
Porque te amo pra sempre.
Porque te amo a cada segundo.
de tê-lo embaraçado entre meus lençóis e pernas
e que nos consumássemos durante noites eternas...
Às vezes sua ausência se confunde com ausência minha,
minha ausência de mim,
e desbota a cor da vida como desbotam sozinhas as fotografias mal-cuidadas...
Eu tirei fotografias dele, com os olhos,
enquanto dormia, enquanto pelado fumava um cigarro,
tirei fotografia da pintinha marronzinha da sua nuca
e sobretudo, enquanto me amava...
Recado pra ele:
Se puder, venha logo,
o mais logo possível,
prometo cuidar de você.
Prometo.
Porque te amo pra sempre.
Porque te amo a cada segundo.
sábado, 19 de julho de 2014
Véu da noite
o véu da noite caiu
as almas mais famintas da cidade estão se reunindo
na loucura dos bares underground
pra ficarem nuas
de qualquer escrúpulo
a Lua se revelou no céu
pela metade
espiando tudo com seu ar de sábia
deusa daqueles que desejam viver sob a sua branca luz
os travestis já estão a postos
no frio da Cruz Machado
não sem antes
uma carreira de pó pra cada narina esculpida
ali é fácil de conseguir
o parque Barigui está bucólico
quase vazio
vazio
a noite está vazia
com tudo o que tem por aí
está mais vazia
do que um copo vazio
a noite é relapsa...
tão reincidente
que eu penso seriamente
em abrir aquela velha garrafa de vinho
em me afogar mais uma vez
dessa vez, sozinha
debochando da noite feito o sujo
falando do mal-lavado
a mal-agradecida
sem pena do mal-amado
o véu da noite caiu
e a tudo cobriu
de cinza...
as almas mais famintas da cidade estão se reunindo
na loucura dos bares underground
pra ficarem nuas
de qualquer escrúpulo
a Lua se revelou no céu
pela metade
espiando tudo com seu ar de sábia
deusa daqueles que desejam viver sob a sua branca luz
os travestis já estão a postos
no frio da Cruz Machado
não sem antes
uma carreira de pó pra cada narina esculpida
ali é fácil de conseguir
o parque Barigui está bucólico
quase vazio
vazio
a noite está vazia
com tudo o que tem por aí
está mais vazia
do que um copo vazio
a noite é relapsa...
tão reincidente
que eu penso seriamente
em abrir aquela velha garrafa de vinho
em me afogar mais uma vez
dessa vez, sozinha
debochando da noite feito o sujo
falando do mal-lavado
a mal-agradecida
sem pena do mal-amado
o véu da noite caiu
e a tudo cobriu
de cinza...
terça-feira, 20 de maio de 2014
domingo, 18 de maio de 2014
Velha queda
tenho velha queda por certas palavras
elas preenchem o buraco da minha expectativa,
são feito uma tradição intangível
nomeando coisas que se alteram ou se unem
à medida do ângulo
ou simplesmente essas palavras
abrem uma mancha bem no meio da minha testa a cada vez que grita
uma chama aqui dentro
é que eu tenho velha queda
por certos sentimentos
elas preenchem o buraco da minha expectativa,
são feito uma tradição intangível
nomeando coisas que se alteram ou se unem
à medida do ângulo
ou simplesmente essas palavras
abrem uma mancha bem no meio da minha testa a cada vez que grita
uma chama aqui dentro
é que eu tenho velha queda
por certos sentimentos
quarta-feira, 7 de maio de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
Little girl blue
fria e estagnada
não sinto direito
que houve com esse coração
que já não bate mais alegria
encantamento?
era tão vermelho
brincando em espaço sem tempo
um pouco descompensado de razão
mas curtia esse seu posto de
levantar vôo em meio a marcha
agora parece que minguou
sente falta de amar a natureza
o sol, a vida
sente falta de venerar
o mistério bonito da existência
os dias têm passado como vagalumes à lâmpada branca, invisíveis
"time keeps moving on
friends? they turned away"
então eu sento aqui
e escuto a Janis
porque a sua voz ainda faz reacender
uma chama azul
de estatura mais ou menos louca
no centro oco do meu peito
não é lá como o blue bird do Bukowski
mas olha só, queridos amigos
o coração ao menos
ainda não morreu
não sinto direito
que houve com esse coração
que já não bate mais alegria
encantamento?
era tão vermelho
brincando em espaço sem tempo
um pouco descompensado de razão
mas curtia esse seu posto de
levantar vôo em meio a marcha
agora parece que minguou
sente falta de amar a natureza
o sol, a vida
sente falta de venerar
o mistério bonito da existência
os dias têm passado como vagalumes à lâmpada branca, invisíveis
"time keeps moving on
friends? they turned away"
então eu sento aqui
e escuto a Janis
porque a sua voz ainda faz reacender
uma chama azul
de estatura mais ou menos louca
no centro oco do meu peito
não é lá como o blue bird do Bukowski
mas olha só, queridos amigos
o coração ao menos
ainda não morreu
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Rua transversa
então eu sinto o mundo pulsando dentro do meu peito
desde o mar, tão distante, saudoso, aos olhares verbais
da gente intrínseca
vou caminhando pela rua transversa sem ponto de stop
pois me sinto viva
hoje, encharcada de dor... mas viva, de angústia movida
"eu prefiro a dor ao nada"
ando devagar, quase parando
correr e a tudo abraçar
de repente já não me cabe mais...
fui refém do vento
sua inconstância distinta me encantou
e agora, sem mais nem menos
não é que o danado me abandonou?
me abandonou
na estrada transversa...
mas a poesia
mesmo nos momentos tristes da minha vida
ela ficou, ela fica
e eu fico
nesse meu espaço entre as palavras
por favor, nunca vá embora, poesia
eu quero morrer nos teus braços
desde o mar, tão distante, saudoso, aos olhares verbais
da gente intrínseca
vou caminhando pela rua transversa sem ponto de stop
pois me sinto viva
hoje, encharcada de dor... mas viva, de angústia movida
"eu prefiro a dor ao nada"
ando devagar, quase parando
correr e a tudo abraçar
de repente já não me cabe mais...
fui refém do vento
sua inconstância distinta me encantou
e agora, sem mais nem menos
não é que o danado me abandonou?
me abandonou
na estrada transversa...
mas a poesia
mesmo nos momentos tristes da minha vida
ela ficou, ela fica
e eu fico
nesse meu espaço entre as palavras
por favor, nunca vá embora, poesia
eu quero morrer nos teus braços
quinta-feira, 20 de março de 2014
sábado, 1 de março de 2014
Solidão
outrora doce e meio azedinha
que nem morango com açúcar
bucólica feito o orvalho
sobre a flor de manhãzinha:
pegava nos meus ombros com ternura e adormecia dentro dos papéis
brincando de me fazer sonhar sozinha
nas mesas dos cafés
dessa cidade fria...
de súbita imensidão me fez insone
me arrastou no chão feito cadarço desamarrado
desamarrada de mim
e do mundo
quase traição
me trancou num lugar mínimo
dentro do qual eu não posso fugir da tortura
solidão, amarga
se vestiu de preto
arranhou meu peito
dançou na sala escura
e é como se no fundo de cada taça de vinho
houvesse uma saída de fininho
pra onde eu pudesse me encontrar
quanto mais tento chegar perto
mais longe devo estar
sete vidas
de formas plurais
temo até o fim da minha
a solidão perdurar
que nem morango com açúcar
bucólica feito o orvalho
sobre a flor de manhãzinha:
pegava nos meus ombros com ternura e adormecia dentro dos papéis
brincando de me fazer sonhar sozinha
nas mesas dos cafés
dessa cidade fria...
de súbita imensidão me fez insone
me arrastou no chão feito cadarço desamarrado
desamarrada de mim
e do mundo
quase traição
me trancou num lugar mínimo
dentro do qual eu não posso fugir da tortura
solidão, amarga
se vestiu de preto
arranhou meu peito
dançou na sala escura
e é como se no fundo de cada taça de vinho
houvesse uma saída de fininho
pra onde eu pudesse me encontrar
quanto mais tento chegar perto
mais longe devo estar
sete vidas
de formas plurais
temo até o fim da minha
a solidão perdurar
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Inscrição para cobertura do Festival de Teatro: "Um pequeno texto sobre o seu assunto preferido"
O papel do poeta ao dividir a sua poesia é ser uma janela de escape da percepção banal e cômoda. Tudo é poesia. A timidez da garota, o andar trôpego do bêbado, o barulho do mar dentro dos braços da madrugada e a formiga em marcha ao formigueiro com um pedacinho de folha nas costas quatro vezes mais pesada do que ela mesma. Parece trivial demais, todos os detalhes são ínfimos pra quem não deu brecha pra poesia uma vez sequer na vida. Mas ela é tudo.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Epifania
Queria aprender tanta coisa. Falar tantas línguas mais; francês, italiano, alemão, mandarim. Queria desenvolver o desdobramento do corpo astral e fazer yoga. Memorizar os detalhes da história geral da humanidade, discutir política com esmero, dirigir logo um carro. Queria conhecer de perto várias formas de cultura e aproveitá-las ao máximo. E morar alguns anos em cantos diversos, Europa, Ásia, Oceania... Tocar um instrumento. Dois, três. Queria poder bancar pros meus filhos desde pequenos o dobro de tudo que eu quero dominar, poder proporcioná-los toda a paz que eu por acaso não possuir em mim. Não quero ser perfeita, só espero ser grande. Sabe aquele medo de acabar que nem o Bukowski? (Buk, nada pessoal, eu te amo de verdade); Será que a minha natureza é essa?
Hoje eu pensei no futuro (ao invés de, como sempre, retornar ao passado) e senti um medo estranho. Medo de não conseguir realizar, de ser pela metade, da inevitável corrida contra o tempo, que pareceu muito pouco pra mim. Tive medo de dinheiro e da falta dele, medo da era da (des)informação e medo da Terra explodir antes que eu espere.
Sonhar não faz tão mal assim, eu acho. É o primeiro passo largo pra não viver uma vida de merda.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Voar
Um brinde ao novo começo.
supostamente onde se vê um "fim"
imenda-se o novo começo
não mais que supostamente, das velhas asas caem penas falhas
e se dissolvem sobre a terra
que se faz elemento forte do tempo...
se sou um pássaro negro
cortando o azul do céu num infinito movimento plácido
se nasci me jogando da árvore, ou sendo jogada do ninho,
é mais que suposto
que me encante o movimento, ou eu estaria morta
pequena jazida de aspecto gélido
se estou aqui para voar
que me leve o vento à mais serena posição...
anoiteceu
a lua entrando pela fresta:
onde vê-se o fim da noite vã
imenda-se a luz d'alvorada ao leste
supostamente onde se vê um "fim"
imenda-se o novo começo
não mais que supostamente, das velhas asas caem penas falhas
e se dissolvem sobre a terra
que se faz elemento forte do tempo...
se sou um pássaro negro
cortando o azul do céu num infinito movimento plácido
se nasci me jogando da árvore, ou sendo jogada do ninho,
é mais que suposto
que me encante o movimento, ou eu estaria morta
pequena jazida de aspecto gélido
se estou aqui para voar
que me leve o vento à mais serena posição...
anoiteceu
a lua entrando pela fresta:
onde vê-se o fim da noite vã
imenda-se a luz d'alvorada ao leste
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Meu bem
Meu bem
Domingo é dia de voltar às palavras
E se voltamos às palavras, também te escrevo um poema
Pra te falar do meu amor...
Meu bem
Pra te falar que me embrenhei, me entreguei quando teu hálito traguei, e me tornei
Uma parte apenas da imensidão
Que das tuas lindas mãos inventei.
Meu bem
Tuas mãos são o começo
De uma louca viagem:
Desde a hora de comprar a passagem
(E se de repente, me escreves uma mensagem)
Passando pelas carícias mansas na pele das minhas costas
Até provocarem o orgasmo trêmulo
Incontido nos teus braços...
A tua boca, meu bem,
Teus lábios,
São o mar rosado-pálido onde eu me afogo
Só de olhar...
Mal sabes
Das reações fatais no meu peito quando vens com a boca
Teimando me beijar
Na rua, na sacada, na sala de estar
Naquele meu momento mais frágil
Que não gosto de lembrar...
E fora as mãos e a boca, e ozoín fechado
Tem teu gênio intocável
Tua piada pedante
Teu sorriso imensurável
A poesia andante...
Pretinho
Eu comeria o tal do pastel de feira todas as noites, acredita,
Domingo é dia de voltar às palavras
E se voltamos às palavras, também te escrevo um poema
Pra te falar do meu amor...
Meu bem
Pra te falar que me embrenhei, me entreguei quando teu hálito traguei, e me tornei
Uma parte apenas da imensidão
Que das tuas lindas mãos inventei.
Meu bem
Tuas mãos são o começo
De uma louca viagem:
Desde a hora de comprar a passagem
(E se de repente, me escreves uma mensagem)
Passando pelas carícias mansas na pele das minhas costas
Até provocarem o orgasmo trêmulo
Incontido nos teus braços...
A tua boca, meu bem,
Teus lábios,
São o mar rosado-pálido onde eu me afogo
Só de olhar...
Mal sabes
Das reações fatais no meu peito quando vens com a boca
Teimando me beijar
Na rua, na sacada, na sala de estar
Naquele meu momento mais frágil
Que não gosto de lembrar...
E fora as mãos e a boca, e ozoín fechado
Tem teu gênio intocável
Tua piada pedante
Teu sorriso imensurável
A poesia andante...
Pretinho
Eu comeria o tal do pastel de feira todas as noites, acredita,
E nos primeiros dias
Talvez até aguentasse o seu despertador gritante
Tudo isso e mais um tanto eu faria
Pra que pudesse te abraçar cotidianamente
Quando descesses a rua vindo me buscar em qualquer lugar
Talvez até aguentasse o seu despertador gritante
Tudo isso e mais um tanto eu faria
Pra que pudesse te abraçar cotidianamente
Quando descesses a rua vindo me buscar em qualquer lugar
Os vinhos italianos e lençóis de seda me são menos importantes
Mas você bem que podia me trazer uma única florzinha
Bem que podia me mimar com uma paçoca, né?
Daquelas das banquinhas...
Podia, né, que aqui cê tem colo gostoso pra deitar
Tem cafuné e tem café
Nas madrugadas, tem uma chaminé
De tesão e outras individualidades,
Coisas só pra você
Amor
Hoje eu não quero dormir sozinha...
Essa aflição é o fim da linha
Será que cê também sente saudade assim de mim?
Por aqui, a poeira ainda flutua
No teu colo, toda nua
Declarei o meu lugar...
Será só por um instante? Será que é pela eternidade?
Será deus soberano de escrever as linhas tortas?
Na verdade, pouco importa...
Que importa é te amar
E nós voltamos às palavras, sim, meu bem...
Nossas próprias palavras - que foram sempre dois pares de asas - agora são o limite
E isso é uma contradição.
Vou me afundar nos livros, no jornalismo,
Na cachaça e no sono
Pra que abril logo chegue de braços abertos
Desse tamanhão...
Bem que podia me mimar com uma paçoca, né?
Daquelas das banquinhas...
Podia, né, que aqui cê tem colo gostoso pra deitar
Tem cafuné e tem café
Nas madrugadas, tem uma chaminé
De tesão e outras individualidades,
Coisas só pra você
Amor
Hoje eu não quero dormir sozinha...
Essa aflição é o fim da linha
Será que cê também sente saudade assim de mim?
Por aqui, a poeira ainda flutua
No teu colo, toda nua
Declarei o meu lugar...
Será só por um instante? Será que é pela eternidade?
Será deus soberano de escrever as linhas tortas?
Na verdade, pouco importa...
Que importa é te amar
E nós voltamos às palavras, sim, meu bem...
Nossas próprias palavras - que foram sempre dois pares de asas - agora são o limite
E isso é uma contradição.
Vou me afundar nos livros, no jornalismo,
Na cachaça e no sono
Pra que abril logo chegue de braços abertos
Desse tamanhão...
domingo, 19 de janeiro de 2014
Ninfomaníaca - Lars Von Trier
Uma observação simples, que tive vontade de escrever...
Não me lembro da última vez ou não sei se houve aquela em que vi os cinemas lotados esgotando ingressos de um filme cult, polido. O povo em massa, senso comum não dá muita bola pras particularidades às vezes bizarras que brotam da mente desses diretores. Cansei de ver filas loucas e comentários incessantes sobre os X-Mans, Se Beber Não Case, Harry Potter, etc, tudo aquilo hollywoodiano que o mundo inteiro conhece e tem uma opinião sobre na ponta da língua; nada contra, só constando. Mas dessa vez, qualquer tipo de gente de todo canto veio alvoroçado de curioso (as tias das bilheterias sabem) pra descobrir a nova idéia de Lars Von Trier que andou alardeando meios informativos e alimentando expectativas. Faz sentido, afinal, se propôs tão sexual. "Sexo é assunto popular". A minha expectativa também já era grande desde que soube, e apesar disso, inconscientemente esperei por nada mais que algo peculiarmente óbvio, provocador, uma história corrida sem mistérios ou interrupções, tudo acontecendo explícita e diretamente e chocando os olhos nas cadeiras. Não foi bem assim. A forma com que se desenrola é sutil, intercalada, investigadora da causa das semelhanças, uma sucessão de epifanias. Não esperei por tanta angústia, tanta solidão penetrável, por me desmanchar em lágrimas na cena em que deitado na cama do hospital, o pai conta sobre a folha da árvore "pela centésima vez", eu, que colecionava folhas de árvores na oitava série e também as colava num caderno. E a simultânea importância de Seligman? (um velho que conversa com Joe, a protagonista). Pura graça melancólica seus croissants comidos com garfo e a poesia impressionante das analogias que agarram-se e sustentam as vivências da Joe. O diálogo entre os dois é de tanto conteúdo que pode ser que algum detalhe se perca: é um filme pra ser assistido mais de uma vez. O final me deixou uma indagação que eu prefiro manter secreta, porque falar de final de filme pros outros é idiota. Gosto de quase tudo o que da obra do diretor tive oportunidade de assistir, mas acho que o cara tava inspirado dessa vez, ou simplesmente progrediu, amadureceu na essência. Trilha sonora e fotografia também são o bicho, mas isso não é novidade se tratando do Lars. E chega de puxar o saco dele por hoje. Sugiro que se assista junto à uma garrafa de vinho.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
A maldição do jornalista
Por Marcelo Rubens Paiva (em a segunda vez que te conheci, pág 40);
"1. Não terá vida pessoal, familiar ou sentimental.
2. Não verá o filho crescer.
3. Não terá feriado, fins de semana ou outro tipo de folga.
4. Terá gastrite, se tiver sorte. Se for como os demais, terá úlcera.
5. A pressa será o único amigo, e as refeições principais serão sanduíches, pizzas e pães de queijo.
6. Os cabelos ficarão brancos antes do tempo. Se sobrarem cabelos.
7. Sua sanidade mental será posta em xeque antes que complete cinco anos de trabalho.
8. Dormir será considerado período de folga; logo, não dormirá.
9. Trabalho será o assunto preferido, se não o único.
10. As pessoas serão divididas em dois tipos: as que entendem de comunicação e as que não.
11. A máquina de café será a melhor colega de trabalho, porém, a cafeína não fará mais efeito.
12. Happy Hours serão excelentes oportunidades de ter algum tipo de contato com outras pessoas loucas como você.
13. Sonhará com sua matéria. E não raramente mudará o título dela e algumas palavras enquanto dorme.
14. Exibirá olheiras como troféu de guerra.
15. E o pior, inexplicavelmente, gostará disso tudo."
Olha só o que me espera... É isso mesmo??? De qualquer forma, ansiosa pro início das aulas.
P.S: O livro é ótimo. Divertido e inteligente. Recomendo.
"1. Não terá vida pessoal, familiar ou sentimental.
2. Não verá o filho crescer.
3. Não terá feriado, fins de semana ou outro tipo de folga.
4. Terá gastrite, se tiver sorte. Se for como os demais, terá úlcera.
5. A pressa será o único amigo, e as refeições principais serão sanduíches, pizzas e pães de queijo.
6. Os cabelos ficarão brancos antes do tempo. Se sobrarem cabelos.
7. Sua sanidade mental será posta em xeque antes que complete cinco anos de trabalho.
8. Dormir será considerado período de folga; logo, não dormirá.
9. Trabalho será o assunto preferido, se não o único.
10. As pessoas serão divididas em dois tipos: as que entendem de comunicação e as que não.
11. A máquina de café será a melhor colega de trabalho, porém, a cafeína não fará mais efeito.
12. Happy Hours serão excelentes oportunidades de ter algum tipo de contato com outras pessoas loucas como você.
13. Sonhará com sua matéria. E não raramente mudará o título dela e algumas palavras enquanto dorme.
14. Exibirá olheiras como troféu de guerra.
15. E o pior, inexplicavelmente, gostará disso tudo."
Olha só o que me espera... É isso mesmo??? De qualquer forma, ansiosa pro início das aulas.
P.S: O livro é ótimo. Divertido e inteligente. Recomendo.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Temp(o)estade
me olham, os cegos olhos do tempo...
com a sua tendência de ser de uma branca beleza triste,
sua irreverência silenciosa, manchando de bruma o céu de crepom...
me olham alegóricos os cegos olhos de quem roubou minhas palavras
e pouco a pouco desbota a cor desse espaço;
o tempo de olhos cegos
me fez de uns olhos desencontrados...
não sei se preciso ser ninada,
surpreendida, rasgada, virada do avesso...
de todas as coisas do mundo,
não sei de qual delas preciso.
sei que estou faminta de mim.
faminta da coisa xis que transborde
aquilo que no meu peito o tempo já completou...
eu sou um pedaço de mar,
me movo de ondas
me mordo em ímpeto e me morro um pouco a cada segundo
desse tempo frio,
vazio
e lento
que passa...
com a sua tendência de ser de uma branca beleza triste,
sua irreverência silenciosa, manchando de bruma o céu de crepom...
me olham alegóricos os cegos olhos de quem roubou minhas palavras
e pouco a pouco desbota a cor desse espaço;
o tempo de olhos cegos
me fez de uns olhos desencontrados...
não sei se preciso ser ninada,
surpreendida, rasgada, virada do avesso...
de todas as coisas do mundo,
não sei de qual delas preciso.
sei que estou faminta de mim.
faminta da coisa xis que transborde
aquilo que no meu peito o tempo já completou...
eu sou um pedaço de mar,
me movo de ondas
me mordo em ímpeto e me morro um pouco a cada segundo
desse tempo frio,
vazio
e lento
que passa...
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
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