sábado, 26 de dezembro de 2015

Colhões

"Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora-da-lei, o filho-da-puta. Não gosto dos garotos bem barbeados com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de supresas e explosões. Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade."

- C. Bukowski

sábado, 5 de dezembro de 2015

domingo, 15 de novembro de 2015

fumaça, pileque, toque, película
dentro do leque
nada capaz de suprir esse vazio
nem mesmo o amor, com suas variáveis,
suas fantasias.
nem mesmo a liberdade,
égalité, fraternité, liberté.
nada que apague a constante fagulha pequena, incômoda,
membro de mim.
lá fora, a lâmina do orgulho crava a pele do mundo,
a lama espessa do caos veste os homens, desprovidos de empatia,
por uma imensidão de causas e efeitos que de repente se torna incompreensível,
invisível pra mim.
só sobrou o sangue, a carne,
a fissura, o mármore.
a solidão.
e eu fico aqui.
até que a fagulha vire incêndio.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Menina da lua e das estrelas

17h49
Andava pela cândido de abreu meio desacreditada, olhando a prediarada do centro como um cenário habitual, daqueles que cansam a vista no decorrer dos anos. Paisagem cinzenta da infância, vento frio na cara, uma pontinha de incerteza das coisas na idéia.
Naquele momento eu me sentia assim, meio calejada da vida, meio arrebentada dos tapas na cara, e estranhamente indiferente a isso tudo. Como se fosse murchando, murchando, prestes a chegar na temida idade em que as pequenas magias cotidianas se tornam meros detalhes imperceptíveis, descartáveis, numa espécie de amargura que abarrota lentamente o amor que a gente tem por tudo e por si mesmo. No ponto nebuloso onde as vinte e quatro horas apressadas e repetitivas do dia-a-dia carecem tanto de energia e novidade que a correria, num passo e noutro, transforma-se em inércia.
Inércia de espírito.
Talvez as velhas solitárias saibam do que eu falo. Ou talvez qualquer um, com alguma porção mínima de tristeza na composição moral, que venha a ler essa nota corrida.

(ilustração de Nicholas Steinmetz)




















17h51  

Ela aparece, com a luazinha desenhada na testa, sem sair do lugar. Ou, melhor, eu apareço pra ela.
Nossos olhos se cruzam de um jeito magnético não sei por quanto tempo. Tudo ficou suspenso, inexistente.
“Moça. Você é tão bonita”, ela disse pra mim. E eu respondi sorrindo com uma naturalidade incompreensível e incabível a minha pessoa que ela também era linda.
Não foi erótico ou passional. Não alimentou o ego. Não tinha nenhuma segunda intenção. Foi um instante puro, um negócio diferente que mudou tudo em fração de segundos, no escape ligeiro da aura angelical.
Pode ser que eu esteja ficando meio louca, meio doente da evasão gélida da sociedade e que foi surpreendente pra mim alguém me parar desse jeito no meio da rua, sem querer vender qualquer porcaria ou dar uma cantada grotesca. Sem ser dessas coisas provindas do oportunismo urbano, sistemático. Pode ser que a gente tenha sido grandes amigas em outra vida. Ou, então, que ela era mesmo um anjo.
Sei lá.
Só sei que a luz dela refletiu em mim, e a minha luz (se é que ainda existe) refletiu nela.
Eu me lembrei do fato inexorável de que a felicidade é momentânea, e não uma reta duradoura na qual custamos a acreditar e depositar todas as nossas expectativas. Me lembrei dos pequenos milagres da Clarice Lispector e do medo que alimentamos de encarar o sofrimento, de encarar o que é derradeiro.
Lembrei, também, que somos seres findáveis com tempo contado e que nos cabe determinar perspectivas com relação a ele.
A todas as coisas.
Depois dali, o mundo ficou azul diante dos meus olhos. Azul igualzinho aos seus cabelos.

domingo, 11 de outubro de 2015

Procura-se
















Procura-se uma companhia inusitada,
alguém que colecione nos fios de cabelo as opções que fez sem temor,
os momentos que gosta de lembrar.
Procura-se alguém que não procure a palavra certa para exprimir no momento exato,
apenas diga. Mas diga devagar...
Alguma combinação esdrúxula sem compromisso, algo que não se quadra,
que escapa facilmente pelos olhos,
janela da alma que tantos preferem manter cerrada.
Procura-se uma boca pra dividir um café, sorrir porque em algum lugar tocou
sua música preferida.
E divagar sem se dar conta das horas, trocar confissões.
Sei lá.
Que conte uma história qualquer. Um negócio divertido.
Que invente versos à medida que o vento sopra as folhas do outono,
escrevendo no guardanapo.
Alguém que fume um cachimbo. Que use um chapéu engraçado.
Ou, simplesmente, que esqueça de amarrar os sapatos,
distraído com as mudanças da lua.
Assim, comovido pelos pequenos milagres,
observador do essencial,
confiante em sua humilde sabedoria,
e passível de imperfeições, de sentimentos intensos.
Procura-se certa inocência.
Aquilo de entregar sem pensar em receber,
de fazer por bondade, por prazer.
Procuro quem me acrescente conteúdo,
quem não me sufoque em sua mais bela reclusão.
Talvez meio anacrônico, meio desajeitado.
Talvez entediado desse mundo,
talvez como eu,
talvez o oposto de mim.
Procura-se um ser-humano nessa selva de concreto.
Um amigo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

domingo, 4 de outubro de 2015

Reinventar

Solidão induzida. Outorgada. Necessária.
Olho pela janela e entendo,
a luz cinzenta do céu me mostra que às vezes é preciso
isolar-se
para se reinventar.

Juntar caco por caco, cada membro,
alinhar-se ao presente momento,
entender as lacunas da vida.

Não se trata apenas de organizar a bagunça,
mas da consistência do desafio.
Medo. Taquicardia.
O peso da mágoa, cara a cara.

Vou diluindo,
desfazendo nozinho por nozinho,
encarando a fera,
e me exonero, retirante.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

A tristeza na alegria

via Espaço da Sétima Arte















Me dei conta, amor, 
de que mesmo a alegria pode ser um tanto triste.
Assim, de ter uma singela pausa distante no discurso,
uma encolhida melancolia no olhar feliz,
um repouso contínuo entre os pequenos orgulhos,
uma forma meio autodestrutiva de comemorar, de se viver as vitórias. 
Algo de casca dura em se obstinar.
De incandescente na aura.
Me dei conta da existência de uma infinidade de sorrisos que provém da saudade,
da dor.
Do impulso cego ao se agarrar à letargia, e admitir-se triste,
admitir-se não cabível em si.
Somos insaciáveis, dramáticos, feitos de grandezas efêmeras,
de momentos, apenas.
Carregamos cicatrizes, doenças crônicas d'alma, amarguras
Coisas estranhas que às vezes ficam assim,
doces,
bonitas,
compreensíveis.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Bukowski

"É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia d'um copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa."

domingo, 23 de agosto de 2015

melancolia

corpo estranho no meu corpo.
pesa, denso, sobre o meu seio
invade sem pedir licença. 
corpo etéreo, palpável, cobre a luz, faz sombra. 
o olhar vacila.
uma certa química irresistível, ele traz, 
sabe cortejar. sabe enfeitiçar.
não faz barulho, não faz alarde, mas é certeiro,
faz com força, usa dos dentes, das unhas,
do poder que possui, quase com violência.
preenche alguns buracos,
cava outros bem mais fundos.
me veste feito uma peça escura,
me despe como ninguém, na frente de todos. 
nua de alma, transparente, eu fico. 
humilhada.
um troço largado
flutuante no espaço. 
antes de ir embora, o corpo me beija os olhos,
me assegura de que volta sem demora,
e os fecha, lentamente...
"dorme que passa, minha filha", eu logo me lembro. 
e passa. o sono leva...

melancolia é o seu nome. 





quinta-feira, 6 de agosto de 2015

De passagem

Me encanta a experiência, o olhar de sabedoria, a intensidade do pronunciar lento de palavras ébrias sobrepondo o som da música.
Me encanta o novo, o desconhecido surpreendente e inapropriado.
Me encanta a madrugada estrelada, as idéias que são destinadas somente a emergir do silêncio, da solidão, do perfume do incenso em conjunto.
Me encanta o sabor insistente do vinho tinto, o cheiro do sexo, o cheiro do amanhecer apesar da angústia que este me causa.
Me encanta a força das pessoas, capazes de seguir tocando as suas rotinas ainda que consumidas pela desilusão de amores, perdas, fracassos. A força das pessoas quando abraçam causas e se envolvem com as suas façanhas de forma que fazem parecer não existir apatia ou desinteresse.
Me encanta o desenho das asas das verdadeiras borboletas, o barulho calmante e infinito das ondas, que ligam lugares distantes e distintíssimos através da grandeza do oceano.
Me encanta o instinto dos animais, dentre eles a independência dos gatos, me encanta a espontaneidade das crianças, as pequenas plantinhas que nascem do concreto.
Me encanta a metafísica, a imensa incógnita do universo: o que é tudo isso?
Me encantam os filmes que permanecem no pensamento durante semanas, o elevar alucinado da consciência, o intenso sentir do próprio corpo.
Me encanta pisar a terra úmida.
Me encantam bons autores escondidos.
Boa comida. Bons lençóis.
Me encanta o preto e branco da fotografia bem como o espalhar efusivo da aquarela.
A velocidade dos automóveis nas BRs.
A pele negra.
O tilintar de taças.
O barulho da chuva.
Me encanta a liberdade.
Me encanta o mundo.
Me encanta, sobretudo, estar só de passagem.
No entanto, acho o tempo curto.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Lucas

sua maior ideologia é o amor
consiste em ninhos recém construídos
e silêncios que cantam
e esse meu amor que não cabe em rima, métrica,
mas afaga a tua ansiedade,
te aquece leite depois de tanto vinho,
fantasia mundos que talvez te assustem,
talvez te excitem

sua maior virtude é o respeito
a delicadeza ao analisar espaços antes de lhes fazer parte
sempre com um pé atrás e o olhar
de menino vadio

nosso tesão em estarmos vivos é sentir o sangue quando fica quente
quando sente sede
e os repousos de açúcar sobre o tapete
nos fins das tardes alaranjadas

às vezes tenho medo da força interior que tem esse nosso jeito passional e autodestrutivo
mas sinto, sem compreender, que os teus braços
são o meu chalé na mata
a minha morada

se o tempo passou
eu diria que não mudamos de tal maneira que o meu olhar
não cruze com o teu olhar, inebriado,
meu olhar cruza com o teu e engata ternamente,
firmemente,
adentrando o teu grande amor de ser

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ode aos enquadramentos cinematográficos imaginários

Escutar a conversa dos outros ao redor é errado de acordo com os mandamentos morais, mas a ética entra de supetão e salva os curiosos porque vai ver até ela escuta por aí o que não devia. Certos diálogos – cômicos, trágicos, sarcásticos, abençoados da branca ignorância – têm uma capacidade inconsciente de salvar dias alheios de possíveis grandes tédios e estranhos vazios. O que quero dizer, é: existe uma poesia enclausurada nas coisas quando vistas de fora. Momentos despercebidos, personalidades excêntricas e cenários perfeitos que quando se manifestam é como se estivessem em cena; nos enquadramentos cinematográficos imaginários de quem observa, adicionando uma beleza exótica à vida.

Alguns diretores de cinema trazem essa coisa, essa poesia, como foco principal do seu trabalho. Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain é uma obra-prima sobre a força do despercebido. E tem o Almodóvar. Ele parece criar seus personagens a partir de uma ternura particular contida em cada serzinho dessa terra, enaltecendo seus detalhes mais ricos, como numa caricatura. Um diretor-caricata. Que, mais do que adorar a cor vermelha e travestis com passados no mínimo loucos, aproxima o homem da sua própria natureza.

(Ilustração de Nicholas Peres)
Foi o cinema, basicamente, que me ensinou a encontrar as mais diversas essências da vida escondidas em minúcias. Minúcias essas presentes nos pontos de ônibus, nas lanchonetes, nos fumódromos dos bares quando já não se sabe se as pernas são pernas realmente sustentáveis e alguns cigarros podem acabar sendo acesos ao contrário. A poesia é um elemento e te pega de surpresa. Pode soprar de levinho feito o vento da manhã ou ocasionar um incêndio metafórico a revirar lençóis.

Enfim, foi o cinema. Por isso a expressão “enquadramento cinematográfico imaginário”. Porque foi o cinema, com o seu poder de arrancar os olhos do concreto, de abordar o abstrato, a magia dos espaços reclusos, dos olhares elétricos e das tramas inusitadas. Com seus roteiros que abordam e equalizam o impacto do simples comum e o inimaginável, sem limites. Tudo é mais intenso e mais significativo nas películas. Mia Wallace e Vincent Vega tomando um milk-shake e falando sobre silêncios desconfortáveis constrói teorias e estarrece corações.

Um bom enquadramento cinematográfico imaginário é aquele que lhe causará um sorriso discreto ou uma profunda tristeza repentina. Com o tempo nos esquecemos de alguns deles, mas outros novos vivem voltando a aparecer em cada canto. Espontaneamente.

sábado, 27 de junho de 2015

É outono na minha alma

Há algo que vem se deteriorando no interior mais íntimo daquela alma do samba de raíz, das noites quentes, da alegria. Algum lugar muito determinante dessa alma tá coberto de mofo, frio como mármore. A luz do Sol entra pela fresta da janela mas nada ilumina. As memórias mais intensas costuram as interligações de um coração retalhado, suspenso. Por algum motivo desconhecido desses que fazem parte dos mistérios da vida, as crenças mais fortes já não são as mesmas, os prazeres tornaram-se mero preencher de um vazio, os velhos hábitos intensificam.

É outono na minha alma. Tempo de renovar as folhas e entender um novo processo, um processo nunca visto de tão perto antes. Um processo talvez natural, mas que no momento assusta feito ser uma criança tateando um terreno estranho no escuro, sozinha. Sozinha. Mais só do que nunca. Solidão essa que acomoda, que engrandece, que caleja. Tão verdadeira e tão intensa que me sinto incomodada quando alguém senta ao meu lado cheio de conversas descontraídas. Não entendo. Sorrio, mas me sinto incomodada. Como se houvesse um precipício gelado entre eu e essa pessoa: se eu der mais um passo, caio. E ela dá de ombros, ignorando. A melancolia que antes corria no sangue, não é mais melancolia. É morbidez. 

Olho as paredes do quarto, todas preenchidas de fotografias, desenhos, cores, e toda essa informação efusiva me corrói os olhos, me invade a pele. Desejo estar no branco. No preto. Num lugar sóbrio e chato no qual eu nunca me imaginei. Uma vontade de arrancar tudo da parede e guardar com carinho numa daquelas caixas que somem para sempre entulhadas no sótão. Tudo vai pro sótão. Ou pro porão, ou pro lixo. Seja lá o que for. 

"Tudo que em mim sente está pensando." - (Fernando Pessoa)



terça-feira, 9 de junho de 2015

Combinações implacáveis: uma relação entre Cartolinha na tela e a cultura brasileira

Tal como a magia do café com bolinho verbalizada pela Bea Galindo na semana passada, venho observando as combinações mais primorosas que encontro pelo meu caminho. Não é difícil. Feijão bem temperado com banana, vinho com sexo (ou, melhor, sexo com vinho), vinil de Jazz em tarde chuvosa, amor e pôr do Sol, massa de tomate com manjericão. O casamento perfeito de coisas ou situações que retratam, talvez numa metáfora, como a união certa de dois incompletos torna-se muito melhor que o brilho de uma genialidade solitária. Estaria próxima disso a teoria sobre alegria compartilhada?

Dessas combinações (entre muitas outras) que encontrei, creio que nenhuma delas foi  formidável capaz de me deixar arrepiada como parar pra ouvir uma música do Cartola na tela de um filme bem bolado. A morte do Cabelera em “Cidade de Deus” faz muito mais sentido - um sentido muito mais sofrido - acompanhada do violão passível de “Preciso me encontrar”. O sentido irrefutável de uma vida que termina cedo demais em nome das condições sociais que lhe foram impostas, o direcionando, tão obviamente, ao tiro perfurador das suas costelas no momento de fuga para o caminho da esperança. O sentido mórbido do conformismo, por parte da moça; o conformismo que lhe restou. E dos socos no estômago que a vida dá na gente, de vez em quando.


Penso, também, brevemente a partir de tudo isso, na cultura depreciada do nosso país. Depreciada pelos de fora, que acreditam nela como uma composição admirada de outras culturas, não tendo base própria, base sólida. Depreciada, também, e principalmente, pela grande massa dos brasileiros que não se dão a oportunidade sequer de conhecê-la, e dessa forma, a impedem de se expandir mundialmente à maneira devida. Essa cultura tão bonita, tão autêntica e enraizada, que às vezes eu sinto que ficou engavetada feito reportagem de quinta – e engavetou, junto a ela, junto ao bolor, todos os seus amantes.

Ano que vem, para a matéria de Cinema Documental, eu vou ter de produzir um curta-metragem, o primeiro da minha vida. Venho pensando desde já nas diversas formas possíveis de usar um Cartolinha esperto para provocar em alguém, quem sabe, um terço do êxtase parecido com o que eu senti na fração incrível de 1m32s da cena de “Cidade de Deus”. E ah, é claro, está entre as minhas metas pós-18 anos, a tal idade independente, aprender a cozinhar um feijãozinho daqueles, bem temperado.

Pois temos que viver e espalhar a nossa cultura. Temos que entender e abraçar o contexto do Cabelera. E inventar outras várias combinações implacáveis para a felicidade dos envolvidos.

terça-feira, 14 de abril de 2015

A terra e o homem

Entra na minha terra. Tateia.
Deita sobre a terra, sente o cheiro da terra nua, que exala
calor febril em dia de te receber...
Quase sinto necessidade de implorar-te, com o peito sucumbindo,
para que tenhas essa terra, cravando nela as tuas mãos,
manchando-te da tinta escura,
deleitando-te e me germinando vida.
Faz tanto dessa terra, apaixona-se, protege-a
dos outros exploradores triviais
És o único
Proprietário dessa terra, das curvas, das raízes...
És aquele que conhece a terra
e toda sua rigidez nas noites frias.
Homem de passo firme
pisando sobre a terra,
de grandes mãos então mais firmes, mas cheias de sutileza e prazer.
Mata a sede da terra
despejando o líquido do teu gozo
Despudoriza-a, subverte,
apresenta o sabor e a magia de outros frutos.
Liberta-a do latifúndio
E não esquece jamais da terra, que marcada vai ficar eternamente
pela tua densidade, tua sabedoria,
pela tua semente.

terça-feira, 10 de março de 2015

Reencontro

cabe o mar
dentro da força
de alguém

cabe também
em sua angústia mais funda
lágrima, água, onda
imensidão azul que de súbito ofusca-se, sombria,
na noite

cabe o mar
no amor
de um ser
esse eterno permanecer,
germinar constante da vida

um paralelo tão vil
mas que determina
sermos parte
de tudo

cabe ao mar
equilibrar o insustentável
cabe ao mar
nos fazer reencontrar
aquilo que sonhamos

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Invasão


invado
os braços
do infinito
afinal
sou eu que fico, sempre,
um pouco mais

fixo
e nutro
esse suplício
em busca do porto
que seja paz

desenho uma linha
em que a ponta
encontra com seu princípio
(já meio torto(
e se desfaz perdida nos entremeios
da involuntária
instabilidade



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Luz vadia

A gente nasce com uma luz forte no fundo dos olhos
Luz que se encanta e a tudo seduz
Luz vadia...
Inconsciente do silêncio e do sufoco a que está propensa, se descuida, descompassa
E ofusca, e ofusca...
Até, às vezes, apagar.
Será que é assim na vida de todo mundo?
Esse medo de envelhecer, que de repente surge
Essa metáfora triste que procura driblar a apatia
Será que todo mundo se constrói e desconstrói dezenas de vezes 
Antes de dormir?
Será, amor?
Noite dessas me sussurrou, passando-me a mão pelos cabelos:
Todo mundo chora, uma noite, no travesseiro.

Um pássaro corta o cinza carregando em suas penas o peso da esperança sombria;
Essa que inventamos ao perceber que na existência, o que é puro não se compromete, voraz em seu instinto
A correnteza de um rio é pura. É bonita. 
Uma criança suja de sangue na maternidade,
Uma nuvem com formato diferente,
Pegadas na areia são bonitas.
Será quem vê dessa forma?

Deve-se temer a morte?
Alimentar a imponência?
Reconhecer os próprios limites?
Deve-se calcular a conduta,
Ou deixar-se solto,
Como se fosse não amanhecer o dia?