quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Disfarce de si mesma

(Ler ao som de Milton Nascimento - Francisco)



Desceu do ônibus lentamente, pé ante pé, como quem ao invés de ansiar a chegada, olha desapressada a viagem pela janela. Vinha com uma mala preta e grande de longa estadia e os olhos cansados da crença ferida pelo mundo banalizado. Não era a primeira vez que após tanto tempo fora, não tinha braços para recebê-la no desembarque, mas ainda assim, disfarçando de si mesma, olhou em volta na esperança de encontrar um rosto conhecido. Um sorriso de reencontro. Os velhinhos pegavam suas velhinhas nos braços saudosos e vice-versa e as mães e os filhos ansiosos e cheios de perguntas seguravam os rostos uns dos outros com cuidado eufórico. Ela, apenas, seguia seu caminho de volta sozinha. Um homem bondoso chegou a oferecer ajuda com a mala gigantesca, mas mulher forte e solitária que era, se bastava e fez que não com a cabeça.

Já haviam se passado pouco mais de quatro décadas e a única lembrança de total entrega a outra pele, outro cheiro, de nudez de corpo e alma e cabelos soltos ainda a atormentava junto a culpa e o desejo e a culpa reincidente por sentí-lo. Se culpava, ainda, por de vez em quando ter repentinas imaginações férteis com os amantes que circulavam a sua presença ocasionalmente. Na igreja, na vizinhança, no parque ensolarado aos domingos. E logo em seguida, como autopunição, procurava na memória o ardor das chibatadas e a amargura da comida que serviam de castigo na sua meninice.

Teimou durante quase toda a juventude com a desgraça da prisão que foi condicionada ainda tão pequena. No entanto, decidiu resignar e entrar nos eixos impostos pela mãe depois do constrangimento da noite jamais esquecida: via e revia e trevia a cara furiosa da irmã Lurdes a surpreendendo no quartinho onde perdia a virgindade com seu amado, já com a vara na mão. Augusto era um carpinteiro do convento, alto e de pele dourada, mãos grandíssimas e sotaque baiano. Apanhou nua na frente do moço e rezou cento e cinquenta ave-marias e cento e vinte pai-nossos para esquecê-lo. Parece que nem os anjos e nem mesmo os demônios estavam interessados em roubar e fazer sumiço do seu trauma.

Fez o que supostamente devia fazer e vestiu o hábito e os paramentos. Estava absolutamente proibida de flertar, fazer amor, se tocar, viver aventuras, falar palavrões, beber álcool, tragar fumaça, apagar no sofá assistindo a um programa televisivo qualquer sem antes rezar e acender velas ou comer faminta sem pensar em agradecimentos a deus pela bênção sagrada. Acontece que a freira libidinosa vivia entre a fé e a angústia, o correto e a curiosidade. Seus pezinhos tão pequenos dançavam delicadamente sobre essa linha frágil na qual aprendeu a se equilibrar numa espécie de movimento doente que construiu uma imagem externa tão dura e intocável. Tudo o que sentia era segredo consciente dos seus pecados.

Mas também tinha seus prazeres. Regava plantinhas com amor e cozinhava um feijãozinho como ninguém, o qual dava as sobras para os pedreiros da rua ou as vizinhas doentes que liam para ela romances religiosos e penteavam seus longos cabelos na maioria do tempo escondidos. Aliás, tinha paixão pelos seus imensos cabelos. Perdia horas cuidando dos fios esbranquiçados e estranhamente sedosos, muito mais sedosos do que a pelagem alaranjada do seu gato chamado Isaac. Ela leu que o nome bíblico significa “filho da alegria”. E ele bem que lhe dava alegria, se esfregando entre as suas pernas a pedidos de uma tigela de leite ou ronronando com ternura enroladinho na sua cama de lençóis branquíssimos. Não era uma dessas freiras convencionais que dão conselhos e dizem aos outros o que fazer. Não se sentia preparada para isso. Era simplesmente boa ouvinte. Dava segurança silente aos jovens que vinham cheios de medo falar das suas preocupações e noites insones. O tempo parecia passar diferente na sua presença.

Naquele fim de tarde chuvosa, chegou de viagem no convento e, embalada pelo lusco-fusco do anoitecer que traz à tona epifanias grandiosas, percebeu que as suas alegrias não eram assim tão vulneráveis. Conhecia o processo de vida das plantas e a naturalidade dos seus ciclos. Valorizou a relação não-dependente e construtiva da amizade e encarou os olhinhos de Isaac como os braços que a esperavam ansiosamente, apesar de não ser na rodoviária. Deitou na cama branquinha e suspirou profundamente como se deitasse em nuvens pálidas. Só se sentiu tão plena daquele jeito quando, jovem e linda, se entregou à boca deliciosa de Augusto. Mas nesse instante, tudo o que queria era estar só.

Ela então entendeu que deus na verdade estava presente em momentos como esse. No pôr-do-Sol, na sensação de plenitude, no sabor mágico do temperinho da horta, nas frases que escapam sem nenhuma intenção e deixam no ar, como quem deixa algo em cima da mesa, um significado virtuoso. Deus era, finalmente, a poesia que nunca tinha a abandonado.

Ainda assim, se sentia sozinha. Mas prometeu a si mesma que nunca mais sentiria culpa.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Hora tênue

na hora tênue entre aqui e o lado de lá
venho dirigindo meu caminho inevitável
estrada nua, escura
em direção oposta pro mar
venho pensando na leveza contraditória do vento pesado
da beira do pélago
na ambiguidade trôpega que me consiste enquanto caráter humano
em toda sua nudez incondicional enlaçada com a realidade subjetiva
venho confiando na minha proteção porque a sinto perto de mim
e confiando no tempo como grande sábio
ainda que autor de tanta dor; escritor certeiro
desprovido de pudor
venho tragando o cigarro, sentindo o prazer que eriça meus pelos
de ser inteira, de embalar na música do velho que tem tanto a dizer
e junto a ele compreender os sinais miúdos de coisas tão profundas
de passos que desaparecem na calçada
e então chegar em casa
e sentar só mais um minutinho
ao lado do silêncio

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Entre a truculência e o cuidado


devíamos reinventar a saudade
a pureza ferida de um termo sangrento e único
temos aqui, ao menos, a esmola de poder fazê-la em letra substantiva
escrevê-la num papelzinho e dobrar e redobrar como quem diminui o mar numa fotografia.
devíamos reler "a arte de perder" num processo austero e consciente
e entender a passagem obrigatória, porém finita, de determinadas coisas que tomam seu rumo em silêncio numa noite fria,
juntando roupas, girando lentamente a maçaneta,
largando seu cheiro para trás.
ainda não entendi, na vida, essa dualidade que vem com o amor,
que transita entre o pior egoísmo e a coisa mais bonita que eu já vi.
de algum lugar aí, entre a truculência e o cuidado, nasceu a saudade
precisamos olhá-la agora com olhos bondosos e confiantes
sorrir pra ela com alívio por não tê-la feito uma lâmina,
mas assimilá-la ao sereno vívido de uma outra noite em que se gosta da solidão
e um lampejo rodopia na sua sutil eternidade.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

universo em verso

Sobre um trabalho independente que desvenda e abre espaço à genialidade de escritores amantes dessa terra fria. Há um tempinho ele se desenrola na minha cabeça, e eu tive o prazer de dividí-lo com mulheres fortes e maravilhosas. Taí o nosso doc.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Ruína

passei dias pensando nessa condição meio inoportuna
nesse caminho meio cruel que eu mesma me tracei - ou fui traçada por ele:
eu sou mais eu quando sou triste.
não me refiro aos momentos caóticos de tão vazios, em que tudo se questiona (esses que provavelmente hora ou outra atormentam quase todas as pessoas),
mas isso parecido com uma lente que me faz enxergar a vida constantemente de maneira tão vulnerável.
eu sou mais eu quando não sou heroína
tampouco anti-heroína
quando percebo que não tem jeito instantâneo de mudar o mundo
assim aprendo a valorizar os momentos, as pequenas coisas que me observam,
bendita poeira à luz solar.
algo mágico, carregado de nuances tão intensas e maravilhosas
e passageiras e voláteis.
assim me permito alcançar as palavras, escrever sobre essas coisas,
e sempre discordar que os anos passam rápido demais,
pois vivo cada momento, ainda os que me atropelam
e fortaleço o meu ímpeto de aprender algo novo, interessante,
antes que o tempo me roube algo que eu não quero perder.
talvez a minha grande ruína seja ter me apaixonado perdidamente pela vida:
essa amante desgraçada.

sábado, 23 de julho de 2016

Resposta

Ed,

Criar é uma coisa maravilhosa. Mesmo com toda a sua essência de novidade, toda a sua particularidade inventiva, acho que, no fim das contas, é simplesmente o reflexo de um pedacinho de consciência universal, do encantamento, ainda que às vezes triste, para com tudo isso que nos cerca, que nos desperta curiosidade, que nos coloca em outros ângulos. Tenho sofrido um pouco por isso ultimamente: meus pensamentos, que antes eram uma caixinha de surpresas, uma oficina de idealizações artísticas e tudo mais, agora vivem num silêncio conformado com a hipocrisia mundana, afundando numa inércia triste e cansada de olhar pras coisas. Meu mundo anda estranho, tão estranho que calei meus versos por tempo indeterminado. E é por isso que eu fico tão feliz de te ver imaginando histórias, tirando fotografias, escrevendo observações deveras peculiares sobre toda essa realidade massacrante que pode ser tão bonita vista da maneira certa por olhos otimistas e lacrimejantes como os seus. Continua fazendo seus roteiros, seus poemas, e pode contar com a minha ajuda sempre que necessário; eu vou adorar ajudar, vou me sentir mais viva.

Racionalizar a tristeza pode ser até positivo. A gente acaba adquirindo sabedoria, eu acho, de uma forma ou de outra. Mas é uma bosta se sentir amargurando aos poucos, comprovar a passagem da vida daquela maneira cruel que os nossos velhos sempre contaram: "a vida é complicada, meu filho, num dia você tá vivendo suas fantasias mais doces, e noutro, uma desilusão passageira pode fazer tudo isso cair por terra. O trabalho é árduo, as riquezas são um mal necessário e as pessoas não respeitam as outras, não se importam com nada. De repente você fica velho e percebe os seus erros, percebe que poderia ser diferente, mas aí já é tarde demais." Ou algo que o valha. Ainda bem que existe o espiritismo pra dar uma esperançazinha de que nem tudo é tão banal, e que essa corrente que é a vida é de fato eterna (aleatório isso, eu sei). A gente vai aprendendo, e aprendendo...

Aliás, falando em pais e etc, eu queria dizer que acho muito legal a relação que você tem com o seu pai. Parece que ele sempre te ensina coisas legais, que vocês trocam diálogos intelectuais, que ele te orienta super bem da maneira como pode. E a diferença de idade gigantesca de vocês deve ter um propósito interessante. Já te falei que você me remete um pouco aqueles jovens idosos? Sem ofensas, eu acho até bem massa. Sua paixão por livros de filosofia, fumo, cantos escuros, café e suéteres é charmosa e reconfortante. Vai ver é influência dele. Vai ver ele te deixa mais maduro e você deixa ele mais jovem.

Essa noite eu tomei umas sete doses de whisky. Ando passando um pouco da conta. Fico bêbada demais e faço coisas das quais me arrependo no outro dia, coisas que me fazem refletir sobre as minhas sombras, meus nozinhos que não se desfizeram com o tempo. Será que eles um dia se desfazem? Será que a psicanálise funciona mesmo?

Esses momentos, por motivos específicos, me fazem entender gradualmente que a sexualidade é uma coisa muito importante na minha vida. E também um buraco muito mais embaixo, muito mais complicado do que parece. A sexualidade não é simplesmente uma transa de fim de noite, um pornozinho à tarde. Ela pode ser uma dança, ela pode ser um monstro. E nós, mulheres que nos sentimos bonitas de vez em quando, podemos conseguir quase tudo o que queremos através dela. Quando a gente descobre isso, a nossa cabeça bagunça e de repente nos auto-surpreendemos a usando como uma arma. O problema é quando o tiro sai pela culatra.

Desculpa pelo pessimismo do meu e-mail. Eu reconheço que demorei mil anos pra responder e cá estou eu, sendo chata. Mas você sabe como eu funciono. Talvez o próximo seja um e-mail cheio de coisinhas bonitas e sutis, como um raio de Sol entrando pela fresta da sua janela. Sabe essas tardes alaranjadas que deixam escapar fachos de luz e de repente eles parecem estar dentro da nossa alma? Eu quero ser essa pessoa pra você. Quero que as minhas palavras sejam doces, mesmo nas cartas carregadas de angústia.

Tó uma musiquinha pra você:



Se cuida, Ed.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sasso


a cada vez que te vejo, me encanto um pouquinho mais com a vida,
com as coisas silentes que carecem de observação e de uma entrega especial das quais você entende tão bem,
e talvez nem saiba disso.
a cada vez que te vejo, constato que a solidão humana não é assim tão estável,
e se torna dualmente esmagador e confortável perceber que a minha preocupação de horas insones quanto a isso pode ser, em parte, tempo perdido.
através do que você se mostra, compreendo gradualmente a transparência do amor,
reafirmando a certeza de que adoro seu jeito atrapalhado, seus óculos de aro espesso, os creminhos de mão, a sua sinceridade irrefutável e ensimesmada que espera nada mais, nada menos, do que coisas involuntárias e verdadeiras
assim como você pra mim, como o jeito despretensioso que você me apareceu há tanto tempo atrás,
e ficou, e eu fiquei, com a liberdade que de fato existe.
quando te vejo, gosto estranhamente do que eu sou, de cada verbo que despejo tão facilmente entre cafés e risos, tudo tão compreendido, tão abraçado por você.
ter crescido ao seu lado me ensinou também, que nunca paro de crescer,
- ainda que me faltem centímetros -,
nunca ninguém para, e de repente se torna consciente
da força do que é.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

flor de camila

você se mostra aos poucos
uma pétala por vez:
a doçura de voz cantada,
a raridade do olhar que sorri e recua,
essa mente que sucumbe, oscilando entre inconformismo e paixão,
e da sua força a calma que emana
numa timidez protetora.
flor de camila,
germinou no meu coração
floresceu forte e delicada.
uma dessas peças distintas
que andam em poemas,
que fazem correr o tempo.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

passear sozinha

alguma coisa presente nessas ruas costuradas, nesse concreto triste
me faz voltar pra mim
talvez eu seja triste assim
perdida por entre a vastidão dolorosa, as luzes, o ar carregado de fumaça.
talvez a minha grande verdade seja apenas
a sujeira da minha bota,
andei tantas vezes por essas ruas.
algo aqui me faz querer estar só,
e representa a minha realidade de tal forma que, por uns instantes,
até parece mentira;
parece mentira o tempo ter passado tão depressa,
as lembranças se desbotando lentamente, e ainda assim ter medo do adiante,
e ainda assim sorrir a cada vez que uma epifania, um sonho transitório me atropela.
olho tudo como se fosse a primeira vez!
as caixinhas de dinheiro (sempre imagino um desvairado roubando alguma delas às pressas), a poesia de quinta da qual sei que faço parte, os engraxates - e a oprimida piedade.
mesmo que já tenha visto milhares de vezes,
olho os prédios altos, os pombos destemidos, observo o movimento característico do tráfico local,
germinando idéias interrompidas pelas artes de rua.
pus numa caixinha de dinheiro uma prenda diminuta; um pé do meu brinco mais bonito.
meu coração bate no coração da cidade insone.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Baixinha

ela me conduz a valsa pelo quarto
e me conduz a vida mundo afora
ela está em mim, na minha alma
com seus brincos coloridos, seus badulaques
com o seu riso agudo e o empoderamento quase visceral
pequena tão imensa, curiosa, minha terra
às vezes me vem à cabeça a lembrança dela deitada na rede, madrugada alta,
ouvindo Chico Buarque de olhinhos fechados
tão impenetrável
no entanto, para mim (e só pra mim) ela se abre
feito fosse um livro se deliciando com as próprias histórias secretas
seus dramas loucos
seus pensamentos ora incrivelmente livres, ora irredutíveis
e na vastidão sem fim desse mundo
sei que jamais vou encontrar a intensidade dela
nem mesmo em mim
nem mesmo na literatura ou nos filmes do Almodóvar que ela me ensinou a amar.
ela me ensinou a amar e a odiar a vida, bem de perto
e sobre algo muito além da vida
que mora na ligação inexplicável de nós duas



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Elizabeth Bishop

A falta de inspiração e a sonolência desses dias não me permitiram criar, experimentar, ponderar as coisas com cautela. A turbulência desse momento me torna tão vulnerável e ao mesmo tempo me transforma lentamente num ser mais forte. É emaranhado, confuso. E ao mesmo tempo muito claro. Quase um paradoxo, quase como eu. Sentei aqui e, em vez de escrever, preferi ler com muita calma esse poema da Elizabeth Bishop... Maravilhosa! Essas palavras são tão sábias, têm um poder tão grande de concretizar meu sentimento. Quando isso acontece pra mim é como se os devaneios e os fatos adquirissem a capacidade de se encaixar numa fúria sinestésica, se fundir em certezas e iluminar o meu caminho. Não existe estado íntegro de perdição quando se é próximo da arte. Dentre tantas ruínas, essa é a minha maior estrutura, a minha única convicção. Quanto ao César Frank (a trilha sonora perfeita), receio que me falte o ar.

A arte de perder

"A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério: lugares, nomes, a escala subsequente da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
E nem quero lembrar a perda de três casais excelentes.
Perdi duas cidades lindas. E um império que era meu, dois rios e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por mais que pareça (escreve!) muito sério."





sábado, 13 de fevereiro de 2016

Linhas tortas

Das linhas tortas do acaso vi nascer tantas preciosidades
Coisas que jamais imaginaríamos, que demos de ombros
Sentimentos que brotam como plantinhas mágicas entre a dureza do concreto,
delicados mas donos de uma força incomensurável.
Das linhas tortas do acaso vi nascer você em mim
E vou gostando de te conhecer devagarzinho; descobrir as diversas maneiras meio tímidas que você encontrou de provar o teu amor,
descobrir teus sonhos, teu corpo, tuas manias.
Vou gostando de estar à margem do meu carinho te encontrando em músicas, fotografias,
num bordar torpe da tua imagem no meu coração.
E quando meus dedos se perdem pelos teus cabelos negros
é como se eu me visse perdida nesses acasos imprevisíveis.
Adoro me perder, adoro me achar, com essa tranquilidade de quem fuma um cigarro na sacada
Com essa serenidade da tua fala pausada, da tua respiração guiando meu sono,
soprando ternura.
Das linhas descompassadas do amor te entendi como o continente do meu mar,
não o verso que faltava, mas aquele que se lançou lindamente. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Amuleto

Continuo daquele jeito. Meio desajustada, meio desequilibrada, 
meio que sempre olhando as horas na espera ansiosa por algo que não existe,
na consciência temerosa de ser incapaz de segurar o tempo, parar o mundo.
Ainda ponho o gelo antes da coca, atropelo pensamentos movida por um ímpeto desvairado e me vejo transbordar quando me dou, ou não, conta das coisas que fiz, que deixei de fazer, dos sonhos que enterrei, do que joguei fora.
Minuciosa, ainda não gosto muito de conversa durante os filmes, e rebobino inúmeras vezes quando a cena me interessa. Vejo, revejo, trevejo os meus favoritos porque os entendo um pouquinho mais a cada vez que constato a fineza da obra, a profundidade do autor. No entanto, minha lista continua crescendo, meio estagnada, meio esquecida.
Continuo não gostando tanto do que escrevo, mas me torno cada vez mais certa de que tenho as palavras como uma espécie de lastro, de sustentação essencial. Reconheço meu lugar entre elas, que me invadem e me tocam até o caroço, até o magma de mim.
Me apaixono por cores, por desenhos, por expressões, por pessoas, pela delicadeza de momentos feitos de uma imensidão despercebida, quase pisada. E tenho medo de perder isso.
Sem dúvida ainda bebo com a força de uns três homens, ainda falo palavrão pra caralho, fico puta, viro leoa quando me sinto injustiçada ou quando encontro ferimentos em quem amo.
Não deixei de acreditar num deus onipresente, nas energias que representam sua verdade variável, sua maravilha enigmática que me acompanha pelas empreitadas, pelas esquinas, pelo tempo corrente, enfim.
Guardei manias e ingenuidades de menina, às vezes tão descomplicada e sutil que eu mesma receio me machucar, e assim questiono meus limites, minha auto-destruição. 
Gosto de imaginar, até hoje, uma vida futura com a paz das tardes alaranjadas, dos bolos alaranjados no meu apartamento pequenininho onde eu possa cobrir as paredes de fotografias e dali sair a pé, adentrando as ruas da cidade nunca antes exploradas com olhos curiosos. 
E que nessa vida futura eu possa viver momentos inteiramente; com a integridade do meu ser, sem ter que me partir em mil pedacinhos para estar em diversos lugares ao mesmo tempo.
É só isso. Acho que não existem maiores idealizações sobre a pessoa que eu sou, e que renasce e cresce a cada vez que o destino desagua em outros caminhos, em novas idéias.
Existe apenas o que eu carrego dentro do meu peito, a minha alma, o meu amuleto, pequeno e absoluto.



sábado, 6 de fevereiro de 2016

Carnaval

Você tinha mania de sair sozinho no carnaval. Observar o mundo por detrás das lentes arranhadas com extrema frieza. Quase fazendo análises antropológicas do ser-humano entregue às mãos das noites loucas.
Parece que agora está sempre acompanhado, cultuando boas energias, emanando bons fluidos. Buscando efusividade nas palavras, nas expressões.
Você costumava se consumir em angústia, entornar porre atrás de porre sentado na sarjeta e escrever coisas maravilhosas jamais reconhecendo o quão eram maravilhosas. Dizem por aí que escritor bom é escritor autocrítico, às vezes até sem amor próprio.
Hoje você tem publicado tão pouco. 
Você fazia piadas infames sobre tudo e todos, mas guardava dentro do coração uma ternura infinita para com a humanidade, a natureza, que podia até te fazer chorar, e que nunca deixava ser tocada por ninguém. Exceto por mim.
Agora eu já não toco mais. Já não sei de mais nada. Bem, isso ao menos deve ter permanecido.
Você adorava falar da poesia oculta nas coisas enquanto tragava o seu cigarro ruim. "Cada quadro pode ser uma poesia".
Hoje se mostra tão empurrado pelos impulsos de agarrar a vida que não sei se tem sobrado tempo ou espaço para observar os velhos, as formiguinhas trabalhando, o sotaque debochado da periferia. 
Espero que sim. 
Acho que eu insisti tanto para que você se desvencilhasse da morbidez e se atracasse na alegria da juventude que finalmente você resolveu escutar, talvez se espelhar em mim... E deu certo. Ou não.
Mas hoje fui eu quem saí sozinha no carnaval.
Olhei (e escutei) o mar, as pessoas dançando, senti cheiro de maconha, tomei as minhas usuais doses de whisky.
Me dei conta de algumas coisas. Coisas que trocamos, que nos ensinamos. E que depois de toda a raiva, já passou da hora de parar de te olhar de longe. De romper com o pacto. 
Ainda bem. Isso estava me matando. 
Você me mostrou, uma porção de vezes, a dualidade da solidão.
Ora tão triste. E tão lúcida.
Ora essencialmente bonita. Necessária.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Presença de um anjo

Maria
Veio me ver
Trouxe do céu o véu da serenidade
O sopro da paciência, a firmeza da sabedoria

Mulher forte, mãe de todos
Meio fúria, meio doçura
Origem dos polos de uma ligação transcendental

Maria, um anjo
Senhorinha
Imensa no amor terreno
Eterna no celestial

sábado, 30 de janeiro de 2016

Índio

Tem no sangue a união das tribos.
A fé dos rituais.
Cigarro, seda enrolada, café puro, banho de chuva. Homeopatia estudada.
Protege ferozmente aqueles que ama. E vira bicho ao amar.
Índio
Seus cabelos negros são as cortinas da alma intrínseca.
Das indecências e virtudes que gosta de guardar.
Índio
Homem firme, íntegro
Precisa da natureza. Do som das folhas ao vento.
Acredita na naturalidade das coisas sem contar o tempo;
O tempo não é matéria. É intocável certeza. Um sábio mudo. Certeiro.
Índio
Origem
Teu olhar escuro, terno quanto o intangível,
implacável na presença,
ainda que um tanto inseguro.
Índio
Força calejada
Intensa vitalidade
Alma antiga
Instinto incontido.
Índio
Caminho que ultrapassa.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Crise



Um, dois
Um, dois, três
Fugaz
A percepção de que o meu pecado compactua com o egoísmo me invade
Assim como as lembranças mais densas
Os toques sujos dos homens
Os amantes perdidos
Remorsos afiados, corações partidos
E estilhaços de ódio
Todos os meus medos acordam
Quebram as janelas
Me devoram de dentro pra fora
Um, dois
Taquicardia
O meu ridículo vertendo, transparecendo
Entre contrações violentas na tentativa de segurá-lo, em vão
Todas as vergonhas
Todos os horrores
A face da morte
A poder da injustiça
O podre da fome
Dois, três
Confusão
O verbo se transfigura
O olhar se perde
Não sinto meus membros
Não sinto
Apenas fecho os olhos e desejo
Nunca mais acordar.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

idas e vindas





















já não espero pela paz
vivo intensamente suas visitas desavisadas
quando vem sem nada nas mãos
e sua ternura inabalável, celestial
não posso tê-la presa comigo
pois a tornaria superficial.

espero somente pelo outono.
as folhas secas, a poesia infiltrada no ar.
entre outras coisas que me afaguem a alma,
brincando com o tempo
de ir e vir.

domingo, 10 de janeiro de 2016

"O que forja uma alma é a sua dor"

Já devia estar no terceiro cigarro a espera de sua chegada. A densidade do céu nos pulmões e dos pulmões no céu pintando uma tela absorta em chumbo, cinza, inércia. Odiava esperar. Sentia-se incomodado com os olhares devoradores da sua solidão angustiada. Não sabia direito o que fazer com as mãos, sem graça.

Daí ela chegou apressada, sentou tirando o lenço e pendurando a sacola na cadeira, tudo ao mesmo tempo. Afobada, como sempre. O escape de uma mecha de cabelo por cima dos seus olhos o prendeu distraído enquanto ela justificava o atraso sem se desculpar. Seus dedos roídos procurando o cardápio numa espécie de preencher com movimentos espasmados o breve constrangimento da chegada. Ela sussurrou.

- Então...
- Você também gosta de tomar café, assim, nesses dias frios?
- Gosto.
- Tem um charme, né?
- O frio? Ou o café?
- O café, o frio.
- Ah, é.
- Mas uma coisa não depende da outra.
- Hein?
- O café. Não depende do frio. É bom tomar no calor também. Quer dizer, supre o vício. Em cafeína.
- Você tem esse vício?
- Em cafeína?
- Em qualquer coisa.

(Silêncio) 

Estar ali com ela era meio como estar cara a cara com o urbanismo, com a luxúria, a confusão, a fumaça, a evasão, as idéias insensatas e criações bizarras que vinham dos filmes e dos livros escritos por gente meio maluca tentando fugir da banalidade do conservadorismo e etc. Ela, com suas meias-calças rasgadas e anéis enfiados em todos os dedos era quase uma personificação da excessividade de informações que se embaralham diariamente, mas fazia tudo isso cair por terra quando sorria tímida e desviava o olhar voltando para dentro de si, da sua prisão erguida por muralhas fortes e impenetráveis, que por uma fresta revelavam alguma fragilidade intacta da infância, do calor dos poucos sonhos que sobravam atrás dos anos corridos.

- Li uma vez que temos muitos vícios. Nós, os humanos. E vários preconceitos também.
- Mas nem tudo é consciente, né?
- É. Você leu isso também?
- Não. Só supus.
- Você supõe muitas coisas? Sobre isso tudo?
- Isso o que?
- Sei lá. Sobre a vida, sobre as pessoas. Nós mesmos. As coisas.
- Eu não sei. Acho que suponho coisas normais, que todo mundo supõe. Mas não me aprofundo muito nelas. Porque se não eu fico meio doida, sabe?
- Doida?
- É, doida. Pensando demais. Fazendo de menos.
- Mas isso não é bom pro seu trabalho? Pensar? Não alimenta o que você escreve?
- Às vezes eu escrevo sobre o vazio.
- Que vazio?
- Ah, o vazio que eu sinto.
- Como é?
- Oi?
- O vazio, como é?
- Um oco, assim, no peito. Uma preguiça da vida, das pessoas. Inclusive de pensar, de supor.
- Sei. Mas você escreve várias vezes sobre a mesma coisa?
- Cada vez de um jeito novo. Existem vazios diferentes, entende? E a forma como a gente sente também muda.
- Você está sentindo isso agora?
- Não sei. Falar sobre ele sempre o afugenta. Ou talvez seja um descanso. Às vezes ele sai pra passear porque quer. Talvez queira conversar com outros vazios. Tomar um café.

(Silêncio)

Sempre admirou quem conseguia brincar com a existência assim. Criar metáforas sob pressão, inventar situações reversas. Ironias singelas ou pontiagudas. Era um apreço transparente pelas coisas ao contrário, pela monotonia sendo bagunçada. Essa capacidade estava estampada, inclusive, nos cabelos dela. Loucos. Sorriu delicadamente ao imaginar o seu leve descaso com a própria aparência porque dentro das muralhas impenetráveis existia um turbilhão. Igualzinho a ele.

- Sabe, a gente devia viajar. Ou inventar uma obra de arte. Ou sei lá, uma brincadeira engraçada.
- Por que?
- Pra esquecer um pouco. Dos nossos pensamentos. Ou lembrar deles de uma forma mais bonita.
- Tinha uma brincadeira - Ela pegou um guardanapo e tirou uma caneta do bolso, alisando-o, afobada, mais uma vez - ...que a minha mãe me ensinou quando eu era criança. É assim: eu escrevo uma frase, dobro o papel, e você escreve outra embaixo, sem ler o que eu escrevi. E dobra de novo. E eu escrevo de novo sem ler o que você escreveu. E assim por diante. Até terminar a folha. Depois a gente vê o que saiu.

Ela escreveu alguma coisa, parecia ansiosa, nostálgica, enquanto a mecha de cabelo voltava a cair sobre os seus olhos, e logo dobrou o papel, passando-o pra ele junto à caneta com uma expressão gozada de desafio. Era divertido estar ali. Então ele escreveu a primeira coisa que pensou. E devolveu. E recebeu. E devolveu.

- Preciso ir embora. Fica com os escritos. Vai que tenhamos composto a nível de Camões - Disse rindo, sarcástica e sem jeito, levantando apressada, juntando as suas coisas. - Me liga qualquer coisa.
- Eu ligo. Ou você liga. Quando quiser falar de algum pensamento ou me indicar um disco. Se cuida.
- Eu tento, às vezes.
- Faz bem.

Naquele momento ela se virou de costas e retomou o seu caminho apressado, atrasado, enquanto ele ficou ali, observando. Pensando que chato seria se todas as pessoas fossem normais demais, e que chato seria, por outro lado, se todas fossem assim meio loucas, meio lunáticas. Elas perderiam essa aura única, perderiam a graça porque sempre teria alguém mais louco ou mais lunático muito perto. Já fazia um tempo que ele não sentia as coisas do mundo estáveis, como se estivessem certas, nos seus lugares. Abriu lentamente o guardanapo.

"Eu queria um óculos escuro agora. É foda sustentar o olhar quando a gente é inseguro."
"Tem um cara que não para de me olhar do outro lado da rua. Será que tem algo de errado comigo? Uma sujeira no suéter? Um fio despenteado? Ou será que ele me achou atraente?"
"Adoro frango no vinho tinto. Acho que vou tentar fazer um essa noite."
"Uma vez me contaram uma história sobre ameixas. Uma daquelas com moral no fim. Daí vem a expressão 'ameixas da vida', eu acho. O que você acha?"
"Era uma vez um frango xadrez (ou seria um gato chinês?), quer que eu conte outra vez?"

Achou muito engraçadinho e se deu conta de que durante aquele tempo não havia fumado nem um cigarro. Nem pedido nem um café.